Livro sobre o queijo do Serro será lançado no sábado

Obra de Maria Coeli Simões Pires retrata a história e a produção do queijo na região

Por SerTãoBras

969624_381034225356647_988998098_nO livro Memória e Arte do Queijo do Serro – o saber sobre a mesa, de Maria Coeli Simões Pires, que retrata o processo de fabricação do queijo do Serro, será lançado no sábado, 28, às 19h, no Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. A autora, nascida no Serro, começa a obra narrando a história do queijo na humanidade, desde 5.000 anos na Itália, Grécia, Espanha, Mesopotâmia etc., diferencia tipos de massas e de tratamentos de cura. Depois, adentra para a história da atividade queijeira na economia dos caminhos do Brasil e de Minas: os tropeiros, a efervescência do ouro, as igrejas, quintais e currais.

O livro é resultado da coletânea de textos e informações sobre as fazendas da região do Serro que não entraram oficialmente para o dossiê que deu embasamento para a declaração do queijo Minas como patrimônio imaterial. O texto ainda evolui pela história do movimento atual pela valorização da produção e experiência pessoal da autora.

Dividido em oito capítulos – “Uma História que Vem de Longe”, “Estrutura Fundiária do Brasil”, Atividades Econômicas e Caminhos do Brasil e de Minas”, “Estrutura Fundiária do Serro: das Data às Sesmarias”, “Arte e Ciência do Queijo: Princípio Comum de Preparação e Características Gerais”, Queijo Minas e Queijo Artesanal do Serro”, “O Ofício do Queijeiro” e “Processo Artesanal na Tradição Queijeira”-, o livro traz ainda fotos, com destaque para as fazendas, seus casarões com telhados de quatro águas, a criação de gado e a produção de queijo, e receitas de pão de queijo, bolinhas de queijo, farofa de rala, pudim de queijo, polenta, bolo de fubá, bolachinhas e outras.

Um CD-ROM com anexos, entrevistas e legislação acompanha a obra impressa publicada pela editora UFMG.

 

Memória e Arte do Queijo do Serra – O saber sobre a mesa

Por Maria Coeli Simões

Coleção: Obra Avulsa

Dimensão: 28,0 X 28,3 X 1,7

Peso: 880 gramas

Páginas: 196

Acompanha CD-ROM

Apoio: Instituto Cultural Usiminas, JoyGlobal, Lei de Incentivo à Cultura

Patrocínio: CBMM, Usiminas

Realização: Artmanagers, Ministério da Cultura

Preço: R$ 80

Coordenação editorial: Conceito editorial, José Eduardo Gonçalves, Silvia Rubião, Doia Freire

Pesquisa: Maria Coeli Simões Pires

Colaboradores: Jorge Brandão Simões, Fabiana Coelho Simões, Maíra Freire, Marcílio França (revisão) – 1ª etapa
Celia Corsino, Doia Freire, Zara Simões – 2ª etapa

Projeto Gráfico New Comunicação:  Angela Dourado, Anelise Dias Giordani, Bernardo Lessa

Fotografia: Luiz Otávio Lopes

Assistente de Fotografia: Lucas Ottoni Lopes

Foto de capa: Miguel Aun

Foto panorâmica da guarda: Felix Tolentino

Foto de abertura dos capítulos 2, 3 e 5: Miguel Aun

Foto de abertura do capítulo 8: Paulo Procópio

Foto forma oitavada página 98: Miguel Aun

Assessoria jurídica: Drummond e Neumayr Advocacia

Revisão: Juliana Galvão

Tradução para o inglês: Sérvulo Monteiro Resende

Lançamento

28/9 – 19h

Museu de Artes e Ofícios

Praça Rui Barbosa s/n Centro – Belo Horizonte

Leia a íntegra da apresentação do livro, escrita por Angela Gutierrez:

Visita à alma mineira

O queijo de Minas é parte do núcleo formador de nossa cultura. Nosso Estado tem atributos que o diferenciam culturalmente do conjunto do país. São usos e costumes, modos de ser e fazer, que se projetam em todos os campos da presença humana – na arte, na construção e arquitetura, na expressão simbólica da fé religiosa, na música, na lida com os produtos da terra. Na gastronomia, Minas oferta um leque insuperável de tradições culinárias que encanta e surpreende pela diversidade, pela qualidade e pela elevada concentração de valores culturais. Aqui, ciosos do que a boa cozinha é capaz de produzir, cultivamos a certeza de que a comida é alimento e também manifestação de nosso estar no mundo. É cultura.

Como pesquisadora obstinada e apaixonada, conheço bem este território de fazeres e saberes diversos. Ao longo da minha vida voltada à defesa da memória e do patrimônio cultural, reuni um acervo raro de centenas de peças, objetos e ferramentas que contam a história do trabalho no país. Esse material, doado ao patrimônio público, deu origem ao Museu de Artes e Ofícios, que desenvolvemos e implantamos na Estação Central, em Belo Horizonte, aberto ao público desde 2005. Entre os ofícios, está a da Conservação e Transformação de Alimentos, com destaque para a produção do queijo de Minas.

O trabalho da pesquisadora Maria Coeli Simões Pires foi fundamental no desenvolvimento desse núcleo do museu, servindo-nos de referência e inspiração. Em seu estudo, ela captou com acuidade a história do Queijo do Serro, talvez o mais emblemático entre os queijos produzidos em Minas. Na série de fascículos que editamos sobre os ofícios que integram o museu, tivemos a oportunidade de publicar parte do estudo da pesquisadora. Agora, a edição do presente livro resgata a integralidade do seu trabalho.

Ganhamos todos, estudiosos e leitores, a oportunidade de degustar uma história extensa e saborosa, temperada por doses bem harmonizadas de erudição, sensibilidade e compromisso com a cultura.

O trabalho de Maria Coeli destaca-se pela profundidade, amplitude e diversidade, interessando desde o mais exigente pesquisador, com suas diversas abordagens – histórica, antropológica, sociológica, econômica, jurídica e cultural – ao mais descontraído dos leitores em busca de curiosidades, de receitas tradicionais e de um bom passeio pelo interior mineiro, com seus mistérios, sua gente hospitaleira e suas histórias ao pé do fogão. Tudo isso acrescido de belíssimas fotografias da inigualável paisagem serrana e de um CD que traz a tradução para o inglês, a íntegra das entrevistas que embasaram o estudo da autora, a legislação sobre o tema e o parecer que orientou o processo que atribuiu ao queijo artesanal de Minas o reconhecimento como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

O esforço empreendido pela pesquisadora nos remete ao trabalho exemplar de dezenas de outros profissionais, que, lutando contra a escassez bibliográfica e documental, e valendo-se em grande parte dos registros de memória oral, vêm colecionando extenso e significativo acervo sobre o patrimônio imaterial brasileiro. Nesse sentido, é importante ressaltar ainda que foi Maria Coeli, como presidente da Associação dos Amigos do Serro, quem elaborou o relatório que acompanhou a solicitação de registro do Queijo do Serro, encaminhado ao IPHAN, em 2001, pelo então Secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais, Angelo Oswaldo de Araújo Santos. Várias etapas se sucederam após esse ato inicial, incluindo a decisão de ampliar o registro do modo tradicional de fazer os queijos para outras regiões produtoras.

Como conselheira do Conselho Consultivo do IPHAN, tive o privilégio de atuar como relatora do processo de registro. A partir do notável trabalho realizado pela equipe de pesquisadores liderada pelo professor José Newton Coelho Menezes, o qual instruiu os autos do processo por mim examinados, recomendei o registro do modo artesanal do queijo de Minas nas regiões do Serro, da Serra da Canastra e da Serra do Salitre/Alto Paranaíba como Patrimônio Imaterial Brasileiro. Foi uma decisão justa e mais que oportuna.

O registro é uma conquista que honra as raízes culturais de Minas. Trazido pelos colonizadores portugueses e tendo chegado ao Serro pelos caminhos do ouro, o queijo conquistou em terras mineiras não só um aparato de produção artesanal peculiar, que reúne técnica, arte e inventividade em perfeito equilíbrio, mas se impôs como valor cultural. Em torno dele, desenvolveram-se hábitos, costumes e múltiplas relações sócio-econômicas. É impossível falar de Minas sem remeter a qualidade do queijo aqui produzido, resultado da convergência de fatores como a natureza generosa, o conhecimento acumulado e o trabalho rotineiro de milhares de trabalhadores nas fazendas do interior.

O registro ajuda a tirar do limbo do esquecimento uma produção artesanal secular, que envolve a lida diária de muita gente – do trabalhador que planta o capim ao vaqueiro que ordenha as vacas no curral, chegando ao queijeiro que manipula a massa. Essa gente simples e desconhecida passa a protagonista de sua história. Mas é preciso ir além. Com o registro, a luta pela comercialização legal do queijo mineiro ganha uma força insuspeita. As iguarias produzidas entre as serras e montanhas, com esmero e refinada simplicidade, merecem ganhar o paladar de brasileiros e estrangeiros. Com maior visibilidade e medidas de proteção, é possível resistir às pressões do mercado e constituir um passaporte seguro para a inserção do queijo artesanal de Minas nas praças mais exigentes do país e do mundo. A conquista de uma legislação referente à denominação de origem controlada é parte essencial neste projeto de projeção do queijo de Minas.

Aos leitores que se aproximam agora desta obra, asseguro-os de que a mesma atende a paladares distintos – o livro tanto pode ser visto como obra de referencia acadêmica, como uma homenagem apaixonada a um dos mais apreciados símbolos da mineiridade. O mergulho na fascinante história do queijo artesanal de Minas nos leva mesmo a uma inesquecível visita à intimidade da alma mineira.

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