Cada Minas em seu lugar

Nem só de Canastra vive o mercado artesanal mineiro, embora muitos produtores queiram pegar carona na fama da região. Saiba quais são os produtos reconhecidos das cinco regiões produtoras do Estado e como identificá-los nas gôndolas

Crédito: Leo Fontes
O que distingue um queijo artesanal dos industrializados é o tipo de leite usado (foto Leo Fontes)

A recente mudança na legislação para a venda de queijos de leite cru pôs o minas artesanal em voga. Desde o início deste mês, está permitida a comercialização do produto para outros Estados, desde que atendidos os critérios sanitários e outras exigências do governo. O que nem sempre o consumidor sabe é que pode levar para casa um queijo que não é o que parece, nem o que ele pretende levar.

Um giro pelas queijarias de Belo Horizonte traz mais dúvidas do que informações ao consumidor. Quem quer comprar um minas artesanal se perde entre tantos produtos rotulados ou sem embalagem, em meio a informações desencontradas. Conversar com os tradicionais queijeiros do Mercado Central para se informar também não é tão animador. O Gastrô esteve em cinco estabelecimentos e em nenhum obteve explicações claras – nem em rótulos, nem com vendedores.

Queijo canastra é o que se vê anunciado por todos os lugares. O que não quer dizer que seja, de fato, o queijo produzido naquela microrregião, com as técnicas de 200 anos atrás que fizeram a fama do produto. O que dizer, por exemplo, de um queijo vendido como canastra, mas que na verdade é produzido em Araxá?

O coordenador do programa Queijo Minas Artesanal, da Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais), Álbany Árcega, é taxativo: “Não pode porque estão enganando quem compra. No Estado, temos cinco regiões produtoras já identificadas (veja no quadro). Duas delas, Serro e Canastra, já têm o registro de identificação de procedência, que funciona quase como uma patente. É o primeiro passo para o registro de certificação de origem. Canastra é uma marca que só pode ser usada por produtores que estão naquela área delimitada, que não inclui Araxá, para citar o exemplo”, diz.

Especialista na área, o mestre queijeiro Bruno Cabral é um dos jurados do concurso anual do Queijo Minas Artesanal e corrobora a tese da confusão. “Parece que nos rótulos fazem questão de usar truques para pegar o consumidor. Os nome Canastra e Serro vendem, então abusam. O mais comum é vender queijo Minas padrão, com leite pasteurizado, como se fosse artesanal. Basta colocar no rótulo uma dessas palavras. Falta informação para quem compra, que também não tem obrigação de saber. Por isso, o alerta é importante”, afirma.

Para Árcega, uma alternativa para o consumidor não ser enganado é procurar o selo de indicação geográfica do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) nos rótulos dos queijos Canastra e do Serro. Nos produtos das outras regiões, um indicativo de boa procedência pode ser a marca do produtor em baixo relevo na casca do queijo.

O minas padrão é feito com leite pausterizado e, por isso, é menos rico em sabores e texturas presentes nos queijos das fazendas (Foto: Leo Fontes)
O minas padrão é feito com leite pausterizado e, por isso, é menos rico em sabores e texturas presentes nos queijos das fazendas (Foto: Leo Fontes)

 

E se os rótulos confundem, a situação dos que são vendidos sem embalagem é ainda pior, na avaliação do jornalista e historiador da alimentação Carlos Alberto Dória. “Aí, o que vale é o que o vendedor diz ou está escrito na placa. Claro que todos vão usar o queijo da Serra da Canastra porque ele vende muito mais e ninguém contesta o uso indevido do nome. Os produtores é que deviam ter interesse nessa fiscalização, lutar pelo valor e princípios das suas produções, do ponto de vista comercial. Mas, se nem eles fazem, quem vai fiscalizar esse tipo de coisa? E mais: se essa confusão acontece mesmo dentro de Minas, imagina quando os queijos chegarem aos outros Estados legalmente?”, questiona Dória.

Árcega arrisca uma resposta. “O produtor está preocupado em fazer queijo. Muitos são tão pequenos que não sabem o que acontece da porteira da fazenda para fora. A importância de cobrar o uso correto dos nomes é um trabalho que ainda temos que desenvolver com eles”, admite

Terroir
Para Cabral, a educação do consumidor sobre os diferentes tipos de queijos Minas artesanal – Araxá, Campo das Vertentes, Canastra, Cerrado e Serro – poderia ser uma saída para evitar a confusão e o aproveitamento indevido de nomes das regiões mais tradicionais.

“A pesquisa e qualificação das microrregiões produtoras de queijo artesanal ainda são recentes, têm menos de dez anos, isso ainda não foi assimilado. Com o tempo, desde que bem orientado, o consumidor vai perceber as diferenças e descobrir, por exemplo, com qual queijo ele se identifica mais. É um amadurecimento do mercado que eu gostaria muito de ver”, diz.

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