Em defesa das bactérias que fazem bem

Por Renato Pompeu

Em artigo na conceituada revista americana “The New Yorker”, no número de 22 de outubro de 2012 o jornalista especializado em saúde pública Michael Specter, colaborador também dos jornais “The Washington Post” e “The New York Times”, faz o histórico da mudança de visão ora em curso em setores avançados da medicina mundial, mudança segundo a qual está ficando cada vez mais desacreditada a antiga prática de eliminar “os germes” a todo custo, assim como estão ficando cada vez mais fortes os argumentos para, ao contrário, reintroduzir no organismo bactérias que exercem funções benéficas, como ocorre naturalmente quando comemos queijo não pasteurizado, por exemplo.

Ele dá o exemplo do Helycobacter pilori, que em 1982 se descobriu estar associado à gastrite e à úlcera péptica e, mais tarde, ao câncer do estômago; se passou a usar, em casos de gastrite e úlcera, antibióticos para eliminar o H. pilori, com o que se conseguem notáveis índices de curas. Periodicamente, nos meios médicos se falou, nos últimos trinta anos, em eliminar de vez essa bactéria, assim como se fez com o vírus da varíola e se tenta fazer com o vírus da poliomielite. Mas desde os anos 1990 o microbiologista Martin J. Blaser, da Universidade de Nova York, que uma década antes havia desenvolvido o teste até hoje usado para detectar o H. pilori, esteve na liderança de um movimento geral de considerar que as bactérias presentes no organismo humano podem até ser mais importantes do que os genes para a saúde e o bem-estar.

H. pilori: Cientistas acreditam que sua ausência pode estar associada a uma maior incidência de asma e de obesidade

Afinal, o corpo humano abriga dezenas de trilhões de micro-organismos, na sua quase totalidade bactérias (há também vírus e fungos). Essas bactérias pertencem a dez mil espécies diferentes e exercem todo tipo de funções vitais, desde produzir vitaminas até reforçar o sistema imunológico. Em comparação com os 23 mil genes de cada pessoa, tão pesquisados pelos especialistas em saúde, os micro-organismos que habitam cada ser humano – este considerado como um verdadeiro microbioma – contam com nada menos de quatro milhões de genes diferentes que, eles também, atuam em nossas células.

Voltando ao H. pilori. Em 1900, ele habitava o estômago de virtualmente todos os seres humanos do planeta. Hoje, por causa da inoculação de antibióticos, da difusão do saneamento e dos hábitos de higiene, ele está presente em apenas 5 por cento das crianças nos Estados Unidos, embora continua prevalente no menos afortunado Terceiro Mundo. Entretanto, nos últimos quinze anos, Blaser e muitos outros, se reconhecem que, em pessoas de idade madura e mais velhas, o H. pilori pode causar gastrite e úlcera, postulam que, em crianças e jovens, a ausência dessa bactéria pode estar associada a uma maior incidência de asma e de obesidade.  Em 2011, a pesquisadora Anne Müller, da Universidade de Zurique, Suíça, fez uma experiência com camundongos que tinham e não tinham o H. pilori e os expôs a alergênicos. Todos os camundongos que não possuíam o H. pilori desenvolveram asma e nenhum dos que o possuíam teve essa doença.

Também a ausência de H. pilori parece estar associada com um risco maior de desenvolver obesidade. O H. pilori parece reduzir a presença do hormônio grelina, que aumenta o apetite, e aumentar a presença da leptina, que dá o sinal de saciedade alimentar ao cérebro. A conclusão de Blaser e outros é que, se o H. pilori é útil entre crianças e jovens, por combater a asma e a obesidade, e nocivo em idade avançada, por causa do risco da gastrite e da úlcera, se pode imaginar uma medicina do futuro em que a presença de bactérias no organismo será estimulada em certos períodos da vida e combatida em outras fases da existência. Isso pode se estender para bactérias em geral, não apenas para o H. pilori.

veja a tradução da íntegra do artigo em português

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