A saga do queijo brasileiro na Itália: produtores cruzam o oceano em busca de reconhecimento

Por Alisson Paiva e Leonardo Dupin

Enviados especiais a Turim

Valdir Magri produz queijos de leite cru no município de Seara, em Santa Catarina. No dia 23 de outubro, ele despediu-se da esposa e dos filhos, colocou alguns queijos em uma bolsa térmica e partiu para uma viagem de 10.270 km, quase 24 horas, rumo à cidade de Turim, no noroeste da Itália.

Vítima da obscura legislação sanitária brasileira, Magri vive uma contradição. Ele faz um dos produtos mais tradicionais da culinária do sul país, o queijo Colonial ou Colônia. Porém, Magri trabalha na total informalidade. Sem conseguir se adaptar à legislação federal ou mesmo à legislação estadual de Santa Catarina, ele não pode vender seu queijo, nem mesmo dentro do município onde vive, de apenas 17.000 habitantes.

Contudo, Magri foi convidado a apresentar seu queijo no evento Salone Internazionale Del Gusto/Terra Madre em Turim, organizado pela associação internacional Slow Food. Ali, seu produto foi apreciado por diversos consumidores e especialistas europeus.

Valdir Magri teve seus queijos bem avaliados na Itália (Foto: Leonardo Dupin)

“Frustra trabalhar na informalidade. A gente tem um produto de qualidade e mesmo assim tem sido excluído do mercado. Porque a produção é pequena e não tem como se adequar à normas tão rigorosas e, além disso, tem sempre o medo de ser pego pela fiscalização”, afirma o produtor, que é obrigado a vender seu queijo apenas aos amigos e familiares.

Para entrar com seus queijos na Itália, Magri precisou apenas de uma autorização por escrito e não teve problemas com as autoridades locais. Chegar até ali e conseguir o papel de autorização do governo italiano foi muito mais fácil do que conseguir um papel do governo brasileiro que ele busca há anos, o selo do Serviço Inspeção Federal (SIF).

Com todas as promessas e discussões sobre revisão na legislação brasileira, o SIF continua sendo para Magri e outros milhares de produtores de queijos de leite cru brasileiros, um sonho mais distante do que Turim.

“O governo força a pasteurização. Há alguns anos a vigilância sanitária pegou pesado no estado (Santa Catarina) e foi praticamente banida a produção de queijos de leite cru. O número de produtores caiu de 50.000 para 5.000 e esses ainda resistem, mas produzem na informalidade”, afirma ele.

Adequar seu queijo a uma lei de 1952 (assinada pelo presidente Getúlio Vargas), voltada para a realidade da grande indústria e bem distante da produção familiar, não é possível para a maioria dos pequenos produtores. Exigências como, por exemplo, maturação de 60 dias em um entreposto autorizado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é inviável tanto pelo aspecto gastronômico, quanto pelo econômico.

Em Turim, Valdir Magri foi um dos quatro produtores de queijo brasileiros que participaram da conferência “Leite cru nos trópicos: um desafio”, em que se discutiu as dificuldades enfrentadas pelos produtores de queijos de leite cru em países de clima tropical. Os outros produtores são Luciano Carvalho, da Serra da Canastra – MG, João Melo, da Serra do Salitre – MG e Francisco Nogueira Neto, de Jaguaribe – CE.

Evento discute os desafios de produzir queijos de leite cru em países de clima tropical (Foto: Leonardo Dupin)

Para o produtor João Melo, o clima tropical nunca foi um problema: “Queijos de qualidade já são produzidos há 300 anos no país, desde quando não havia muitas informações. Hoje, com as novas tecnologias e pesquisas, é perfeitamente possível explorar as características típicas da região, mantendo a qualidade e higiene, além dos modos tradicionais do fabrico do queijo”.

Ao final da conferência os queijos brasileiros, juntamente com outros queijos de países de clima tropical, como a África do Sul, foram oferecidos para degustação e avaliação de especialistas e consumidores presentes.

Os participantes degustaram queijos brasileiros ao final da conferência (Foto: Leonardo Dupin)

O consumidor italiano Alessandro de Ruggiero, da cidade de Ferrara, disse que os queijos brasileiros se parecem muito com os queijos que são produzidos no Norte da Itália, nas regiões próximas à Áustria e Suíça, também elaborados com leite cru. “É uma pena que a legislação brasileira não reconheça isso, e nós não podemos ter acesso aos queijos artesanais brasileiro aqui na Europa, que são muito bons”, conclui.

Infelizmente, os elogios de especialistas e o reconhecimento do público europeu não resolverá o problema de Magri. Ao final do evento, Magri voltará para Santa Catarina onde não pode vender seus queijos. E se não pode dentro do país, quem dirá no exterior. “A região serrana é berço das grandes agroindústrias (Seara, Sadia, Perdigão, Aurora), que têm muita relação com o governo. Elas não querem concorrer com a produção artesanal porque não conseguem produzir um queijo com as mesmas características”, relata.

Da participação no evento, fica a certeza de que há um grande público que aprecia seu queijo de leite cru e essa é uma razão para Magri continuar produzindo. “As pessoas compram de mim porque conhecem o meu produto. São pessoas que não estão interessadas no rótulo. Independente da inspeção, elas gostam do queijo, sabem que tem sabor e qualidade”, afirma.

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