“Ron Paul, o candidato do leite cru?”

Artigo de Manuela L. Picq (colaboradora), encomendado pela SerTãobras

Os amantes de queijo de leite cru nos Estados Unidos encontraram seu candidato à presidência. Esqueçam aquela velha disputa entre Republicanos e Democratas, a obsoleta distinção entre a esquerda e a direita…. a nova voga política está próxima ao paladar. Mais precisamente, ao leite cru.

O candidato Ron Paul provocou histeria generalizada numa pequena prefeitura de New Hampshire quando ele tocou um ponto raramente levantado em campanhas políticas: liberalizar/desregulamentar o leite cru. New Hampshire, no nordeste dos Estados Unidos, é um dos muitos estados que proíbe a venda de leite cru por razões sanitárias. A lei autoriza a produção individual, mas proíbe sua venda.

New Hampshire é historicamente um dos estados mais libertários do pais, com uma grande população rural que até hoje reitera seu lema estilo ‘Tiradentes’ em todas as placas de carro: “viver livre ou morrer” (live free or die).  A proposta de Paul de restaurar aos cidadãos de NH seu direito de beber leite cru, mais do que expressar apoio a pequenos produtores rurais na região, é uma aposta nos profundos sentimentos libertários locais, onde as pessoas não gostam que o governo lhes diga como fazer as coisas, muito menos qual leite usar.

É a terceira vez que Paul concorre às eleições presidenciais. Apesar de ser o candidato de mais idade, ele está se tornando rapidamente uma celebridade nacional – e ganhando voto – por dizer coisas que ninguém mais no seu partido diz, desde questões lácteas até política exterior.  Além de querer desregulamentar a venda de leite cru em New Hampshire, Paul propõe terminar todas as guerras nas quais os Estados Unidos estão envolvidos no exterior, uma proposta que dá eco a sentimentos anti-militaristas recorrentes entre grupos de esquerda e jovens.

Paul tem articulado temas sócio-econômicos e problemas nacionais latentes que precisam ser discutidos de forma sistemática – e aberta – por candidatos Republicanos e Democratas. Ele está trazendo à tona temas de imperialismo e direitos civis na esfera pública com uma força que inspira irreverência, forçando debates urgentes na sociedade americana mais do que qualquer outro candidato.

As razões pelas quais Paul quer liberar o leite cru e acabar com intervenções militares no meio-oriente, evidentemente, não são as que uma agenda progressiva avançaria. Seu objetivo é capitalizar sentimentos contra o governo federal, mais do que desmantelar monopólios agroindustriais para proteger pequenos produtores lácteos em áreas rurais. As razões para terminar a participação dos Estados Unidos em conflitos militares não são de consideração ética nem porque todas as guerras atuais constituem um enorme desastre humano e político.

Se o discurso pode parecer o mesmo, as razões de Paul são profundamente distintas das razões pelas quais milhões se mobilizaram contra a invasão do Iraque faz uma década e continuam se mobilizando no movimento Occupy Wall Street agora.

Atrás da aparência de um discurso inovador, porém, a mensagem política de Paul é no fundo a mesma de sempre entre Republicanos: diminuir a presença do governo federal e desvincular os Estados Unidos do multilateralismo global. Essa agenda politica não privilegia uma ética de direitos humanos mas um isolacionismo político. Um mesmo meio, objetivos diferentes. O interessante é que Paul construiu uma plataforma política abrangente e ganha visibilidade ativando sentimentos e discursos da esquerda dentro dos discursos tradicionais Republicanos, provocando uma confusão de reações nessa encruzilhada.

A Califórnia autoriza a venda de leite cru, contanto que tenha os rótulos adequados, e New Hampshire tem toda razão de querer desregulamentar o seu mercado lácteo. O problema, claro, é que satisfazer o paladar de alguns em New Hampshire tem seu preço político. E o preço é alto. A agenda liberal de Paul é microscópica comparada às suas credenciais conservadoras, e ganhar o direito de tomar leite cru viria ao detrimento de uma longa lista de direitos fundamentais. Paul promete abolir o direito ao aborto e rejeita a naturalização de filhos de imigrantes (mesmo quando nascidos nos Estados Unidos), sem contar suas posições racistas e anti-LGBT.

O partido Republicano talvez não esteja pronto para nomear um candidato como Paul, que se posiciona longe demais de políticas convencionais republicanas, nem os amadores de leite cru dispostos a abrir mão de  direitos civis para defender seu paladar. Mas ao menos, e talvez sem querer, Paul está lançando novos debates e esquentando o jogo político nesse ano eleitoral.

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