O modo de vida do queijo em destaque mundial

Carlos Dória e Ratton no debate e pré-estréia do filme O Mineiro e o Queijo.

Por Carlos Dória, diretor da Sertãobras

Dória e Ratton no debate e pré-estreia do filme O Mineiro e o Queijo, no espaço Unibanco em São Paulo.

Quarenta e dois países encerraram, em Bilbao, no dia 7 de outubro, a IV ª Conferência Mundial da Agricultura Familiar, resolvendo, entre outras coisas, solicitar à ONU que 2014 seja declarado “Ano da Agricultura Familiar”.

Isso deve fomentar o interesse público por esse segmento produtivo que, representa cerca de 38% da produção agropecuária do país; corresponde a apenas 10% do PIB, apesar de ocupar 24% da área plantada, e empregar 74% da mão de obra rural; é responsável por 70% dos alimentos levados à mesa dos brasileiros: 70% do feijão e 31% do arroz; 84% da mandioca; 58% das carnes suínas; 54% das carnes bovinas; 40% das aves e ovos.

Apesar dessa presença e força incontestável, a “agricultura familiar” só foi definida em lei em 2006, ano em que o Censo Agropecuário destacou, pela primeira vez, os seus contornos estatísticos. Assim, o governo passa a produzir informações que, antes, só se encontravam em estudos acadêmicos, com âmbito limitado.

Bem interessante é o estudo preliminar do Pronaf sobre a agroindústria artesanal, elaborado pela Secretaria da Agricultura Familiar do MDA. É um universo restrito àqueles produtores que possuem Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), que são 85.632 agricultores. O valor básico da produção dessas agroindústrias está em R$ 8.961,00 em dezembro de 2009.

Interessante é que, dentre elas, há 38.983 produtores de queijo que conseguem, com a atividade, uma média de R$ 11.874,00.

Mas se destacarmos nesse universo os produtores mineiros, temos então 11.953 que faturam, em média, R$17.271,00. É a agroindústria artesanal mais “rentável” de Minas Gerais, com rendimentos que correspondem ao dobro da média nacional para esse produto. E se considerarmos que a renda geral dos agricultores gira, no Brasil, em torno de R$ 20 mil anuais por propriedade da agricultura familiar, podemos deduzir que o produtor de queijo mineiro vive, quase que exclusivamente, dessa atividade especializada.

Em cada propriedade trabalham, em média, 4,2 pessoas, despendendo cerca de 1000 dias/homem por ano. Isso significa que o queijo é o centro de suas vidas e eles são, em geral, o casal e dois filhos. Podemos dizer que o queijo, então, mais do que um produto é um modo de vida familiar.

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Qualquer restrição que limite a produção do queijo minas de leite cru colabora para o desmoronamento desse modo de vida subjacente. Um modo de vida tradicional, aliás, de um Brasil onde não havia alternativas para armazenar essa proteína vital na alimentação rural que é o leite.

Ao desmoronar, os filhos vão para a cidade. Os pais vendem a fazendola ou a transformam em produtora de leite para as grandes cooperativas e laticínios.

Em 2014 deverá ficar clara para o mundo a injustiça e violência que se comete contra o modo de vida tradicional e familiar quando os burocratas áulicos, de costas para a realidade, legislam impunemente sobre a “sanidade” do queijo, proibindo sua livre produção e comércio.

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