Patrimônio Cultural, produção do queijo minas desperta polêmica em documentário

Artigo publicado em 29/09/2011

Dirigido por Helvécio Ratton, “O Mineiro e o Queijo” ganha força com bons personagens.

Fabiana de Paula, para EPTV.com

O mais recente documentário de Helvécio Ratton (“O Menino Maluquinho” e “Batismo de Sangue”, entre outros), traz a tona uma contradição que afeta diretamente os pequenos produtores de queijo no interior de Minas Gerais. Considerado um patrimônio cultural brasileiro desde 2008 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o queijo produzido de maneira artesanal a partir do leite cru na região do Serro, Serra da Canastra e Alto Paranaíba, é proibido pelo Ministério da Agricultura de circular em outras partes do país.

Destacando as belas paisagens da região, “O Mineiro e o Queijo” revela a partir de depoimentos de produtores, historiadores, sociólogos e comerciantes locais, uma contradição pouco conhecida pelo público. “Procurei fazer um documentário político e ao mesmo tempo poético. Pouca gente dentro e fora de Minas sabe dessa legislação que impede o queijo de circular. Ela é justa? Essa é a questão que procuro levantar no filme”, explica o diretor.

Uma lei aprovada em 1952 prevê que apenas as peças maturadas por 60 dias podem deixar o estado, o que inviabiliza a comercialização dos queijos artesanais em outras regiões. A lei em vigência no Estado garante que 21 dias são suficientes para a maturação, como comprova uma pesquisa feita pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), baseada em fatores como as condições climáticas.

Mas é na simplicidade de histórias como a do casal Zé Pão e Romilda Ferreira, que produzem o queijo desde a infância, ou no bom humor de Luciano Machado, que compara a situação do queijo minas com a campanha antitabagismo do Ministério da Saúde, que o documentário ganha vida. Personagens carismáticos, os fazendeiros guardam o dom da contação de histórias e garantem as melhores passagens do filme. “Fizemos uma ampla pesquisa em várias regiões. Parte da equipe viajou e gravou vídeos pelo celular mesmo e eu fui vendo a capacidade de comunicação de cada um deles. Busquei também a diversidade em todos os sentidos. Tentei criar um painel com diferentes tipos mineiros”, explica o diretor.

Em 72 minutos de filme, o cineasta mineiro (Ratton é natural de Divinópolis) convida o espectador a entrar na casa dos fazendeiros para acompanhar o processo de produção do queijo, herança passada de uma geração a outra por mais de 300 anos. “Esses produtores conhecem a vaca pelo nome e eles garantem a qualidade do produto que consomem há mais de três gerações”, aponta.

Em um dos depoimentos, um historiador ressalta a importância do queijo para a auto-estima do produtor e como fator agregador à terra, evitando que esses moradores migrem para regiões urbanas. Cada produtor conta a sua história e divide o seu conhecimento, que abrange desde o pasto ideal para alimentar a vaca, até o tempo de maturação correto para garantir o sabor do autêntico queijo minas.

O documentário mostra ainda histórias como a de seu Antônio, produtor que depois de investir em obras para se adaptar à lei estadual se viu obrigado a abandonar a produção de queijo para fornecer leite a um laticínio.

O assunto gera polêmica. Durante a pré-estreia realizada na última terça-feira (27), em São Paulo, o público reagiu de forma inflamada em defesa dos pequenos produtores. “Eu tinha essa curiosidade, sobre como uma plateia paulista reagiria diante do filme e todos ficaram muito indignados porque o queijo francês, feito dentro do mesmo processo, à base do leite cru, pode ser comercializado aqui e o mineiro não pode”, revela Ratton.

Em seu abraço à causa do projeto iniciado pela ONG Sertãobras, Ratton mostra uma questão pertinente que ameaça uma tradição de mais de três séculos, mantida por cerca de 30 mil famílias. Em cartaz em Belo Horizonte desde o dia 23, o documentário estreia nesta sexta-feira (30) nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Juiz de Fora, Salvador e Fortaleza.

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