Parte-Lucro: uma novidade na tradição

SerTãoBras inicia parceria com produtores da Canastra

por Leôncio Diamante

Rebanho de gado leiteiro
Otinho e Eliane possuem um rebanho formado por gado mestiço, composto por 49 vacas

Não é fácil chegar ao sítio do produtor rural Otusseziano Freitas de Oliveira, ou simplesmente Otinho, e de sua esposa Eliane Aparecida Oliveira.  Situado bem no topo da cachoeira do Cerradão (queda d’água com 150 metros de altura), em São Roque de Minas – MG, no coração da Serra Canastra, a propriedade está a 1.032 metros de altitude. São 46 hectares de terras altas, onde a brachiária começa a predominar sobre o capim gordura.

Apesar das adversidades da localização, a Fazenda da Matinha, como é chamada, fica em um lugar deslumbrante, onde o casal vive e produz queijos de leite cru há mais de 18 anos. Interessados em melhorar sua produção, Otinho e Eliane estão participando do projeto “parte-lucro”, criado pela SerTãoBras, em parceria com os produtores rurais e ainda fase de testes.

Foto do casal Otinho e Eliane, produtores de queijo participantes do projeto Parte-Lucro
O casal vive em São Roque de Minas, no coração da Serra da Canastra

Por meio dessa associação, a SerTãoBras adquire os animais e repassa para os produtores que, em contrapartida, terão que dividir as próximas crias dos animais doados. E foi exatamente o que aconteceu com Otinho e Eliane, que receberam no dia 24 de fevereiro duas vacas e um bezerro, batizados por eles de Savana, Sertânia e Duplo, respectivamente. Algumas semanas depois  Sertânia, que foi inseminada artificialmente antes de chegar à propriedade, pariu. O bezerro ganhou o nome de Sertãobras.

Os animais vieram da Fazenda Calciolândia, famosa produtora da raça Gir Leiteiro com sede no município de Arcos (MG). Porém, as vacas Savana e Sertânia possuem a denominação racial conhecida como F1, que são animais híbridos (possuem ½ grau de sangue holandês, ¼ de sangue nelore leiteiro e ¼ de sangue gir leiteiro), com boa produção leiteira, médio porte, resistência a carrapatos e ao calor.

Atualmente, Otinho e Eliane possuem um rebanho formado por gado mestiço (com grau de sangue indefinido), composto por 49 vacas, sendo que 33 delas estão em lactação. Todo o rebanho é alimentado com o pasto da propriedade e cada vaca produz em média 5,8 kg de leite ao dia, com ligeira diminuição na época da seca. Com esse leite, eles produzem em média de 20 queijos por dia, cada um com aproximadamente 1 kg.

Mas, com as vacas F1, o casal pôde produzir mais queijos utilizando a mesma quantidade de pasto gasta normalmente, dentro dos limites que suporta sua propriedade. Desde que recebeu os animais, Otinho afirma estar satisfeito. Segundo ele, embora Savana e Sertânia estejam se alimentado junto com as demais vacas do rebanho, elas se destacam pela média de produção de leite. As duas vacas F1 apresentam a média de 9 kg de leite ao dia, isso descontado o leite que vai para os bezerros.

Já para Eliane Aparecida, a maior vantagem é que o queijo produzido com o leite das F1 rende mais massa. Segundo ela, o que sobra é um soro mais ralo, ou seja, ela gasta menos leite para produzir cada unidade de queijo.

Queijaria da Fazenda Matinha
Este queijo de leite cru respeita as tradições do legítimo Canastra

Com o projeto “parte-lucro”, Otinho e Eliane inovaram e vêm melhorando seu rebanho, e com isso podem aumentar seu rendimento e produção. O queijo produzido no local respeita as tradições do legítimo Canastra, fabricado artesanalmente com leite cru (não pasteurizado). Uma tradição que vem sendo passada desde 1940 pelas gerações da família de Otinho, quando foi introduzida na fazenda pelo seu avô.

Otinho afirma não ser avesso às inovações, desde que elas não alterem a forma de produção do seu queijo. Nos últimos anos, ele reformou sua antiga queijeira, colocou mosquiteiros nas janelas e cimentou o chão. Tenta manter limpo o ambiente externo e queijaria, tarefa que realiza com a ajuda de Eliane. Mas, quanto ao modo de fabricação do queijo, a tradição é mantida. Assim, ele diz manter a qualidade e o sabor deste legítimo produto da Serra da Canastra.

Nota: As vacas F1 são a Savana e a Sertania. Savana é de 1ª cria, tendo iniciado sua lactação em 27/11/2010 e está acompanhada de um bezerro Gir, fruto de transferência de embrião, que Otinho batizou de SerTãoBras. Já Sertania é uma vaca de 3ª cria parida em 12/03/2011 e está acompanhada de um bezerro fruto de inseminação artificial com o touro Hornland Jayz-ET da raça holandesa.

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Jornal do Queijo da Revista Profession Fromager