Nos EUA, manifestantes reivindicam direito de beber leite cru

As mobilizações pelo direito de consumir produtos alimentícios, sem ter que se sujeitar às proibições impostas pelo governo, multiplicam-se pelos EUA. No centro da polêmica agora estão o leite cru (não pasteurizado) e as contínuas proibições impostas pela Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de alimentos no país. Helena Bottemileer publicou no Food Safety News, em 16 de maio de 2011, uma matéria sobre um desses protestos. Os organizadores da mobilização serviram vários litros de leite cru e, para criar mais alarde, ordenharam uma vaca bem em frente aos escritórios do Senado americano, à sombra do Capitólio.

Defensores do leite cru protestam em Washington DC

por Helena Bottemiller


“Eu fiquei assim fofinho bebendo leite cru”, diz o cartaz pregado nas costas de um bebê

Entusiastas do leite cru se reuniram à frente do Senado americano, alegando que o governo os impede de consumir leite não-pasteurizado. “Até onde posso falar, estamos em guerra”, declarou Davide Gumpert, ex-jornalista que se tornou defensor do leite cru, enfaticamente durante o protesto. “Fomos atacados por nosso próprio governo”.

O ataque, como Gumpert e outros defensores do leite cru descrevem, aconteceu no mês passado, quando o Departamento de Justiça dos EUA entrou com uma ação permanente contra a fazenda Rainbow Acers, em Kinzer (PA), depois que o dono da propriedade, Dan Allgyer, ignorou os avisos da Food and Drug Administration (FDA) – órgão regulador de alimentos no paíse violou uma lei federal ao realizar o comércio interestadual de laticínios não-pasteurizados.

A venda do leite cru é legal em mais da metade dos estados americanos e o produto está disponível por todo Estados Unidos. Não existe impedimento legal contra o consumo de leite cru. As vendas interestaduais, porém, são proibidas, e o FDA é responsável por garantir o cumprimento da lei federal.

“Beber o leite cru é perigoso e não deveria ser consumido em qualquer circunstância”, diz Dara A. Corrigan, comissária para assuntos regulatórios da FDA, explicando que o leite cru contém “uma grande variedade de bactérias perigosas”, incluindo E. coli, Salmonella, Listeria e Campylobacter.

Nos EUA, manifestantes ordenham uma vaca à sombra do Capitólio

Para protestar contra as ações da FDA sobre Dan Allgyer, mais de uma centena de seus clientes, muitos dos quais vivem na grande Washington D.C., realizaram um espirituoso protesto, carregando cartazes com os dizeres: “FDA, mexa com alguém do seu tamanho” e “Os fazendeiros não são os inimigos”. Os organizadores da mobilização serviram vários litros de leite cru e, para criar mais alarde, ordenharam uma vaca chamada Morgan bem em frente aos escritórios do Senado americano, à sombra do Capitólio.

A FDA afirma que a agência está simplesmente protegendo a saúde pública. “O consumidores contam com a FDA para protegê-los de alimentos que possam conter bactérias perigosas”, disse a agência em declaração à Food Safety News na segunda-feira.

“O leite cru apresenta um claro e bem documentado risco, especialmente para crianças, gestantes e idosos. Nos estados onde é legal a comercialização do leite cru e seus derivados, existem três vezes mais surtos causados por esses produtos e quase o dobro de surtos de doenças associados com eles do que em estados onde é proibida a venda. O FDA determinou que evitar a venda de leite não-pasteurizado entre estados salva vidas e reduz o número de doenças”.

O Centro de Controle de Doenças e Preservação, a Associação dos Médicos Americanos e a Academia dos Pediatras Americanos compartilham a posição do FDA neste assunto, ecoando o mesmo cuidado que deve ser tomado para crianças e gestantes.

Sally Fallon Morrell, co-fundador e presidente do grupo de divulgação do leite cru, Fundação Weston A. Price, e herói da chamada revolução do leite cru, discorda dos líderes das agências de saúde federais dos EUA.

“Crianças que começam a consumir o leite cru são muito saudáveis, como todos sabem. Eles não tem asma, nem alergias. Não perdem aula, não ficam doente, não tem problemas digestivos”, declarou Fallon durante o protesto, quando foi aplaudido. “O leite cru é um alimento mágico, e estamos aqui para defendê-lo”.

Fallon disse que o mercado para laticínios de leite não-pasteurizado está “crescendo exponencialmente” e prevê que, logo, passarão a demanda dos produtos convencionais, pasteurizados. “Não existe força maior no mundo do que a educação, consumidores compromissados e mães apaixonadas”, acrescentou Fallon.

Os protestantes alegam que quase 15 milhões de americanos consumem o leite cru atualmente. E, sem contar os números, não há dúvidas que a questão está se tornando um símbolo do chamado debate da liberdade dos alimentos e um ponto de unificação entre os Libertarian right e os foodie de esquerda.

Candidato à presidência e deputado texano Ron Paul, apresentou um projeto de lei que permite a venda interestadual do leite cru, o que vai acabar com o que ele acredita ser uma “restrição inconstitucional aos fazendeiros”.

“Muitos americanos pesquisaram e chegaram à conclusão que o leite cru é mais saudável que o pasteurizado”, disse Paul numa audiência semana passada. “Esses americanos têm o direito de consumir esses produtos sem ter que se sujeitar às opiniões do governo ou ter seus desejos frustrados. Se existe uma preocupação legítima sobre a segurança do leite não-pasteurizado, isso deve ser de responsabilidade das autoridades locais e estaduais”.

Durante a mobilização, litros de leite cru foram servidos

Falando das autoridades locais, um policial da capital disse aos manifestantes que estavam distribuindo o leite cru para colocarem avisos alertando os transeuntes que eles estavam bebendo leite cru por conta e risco próprio porque “o FDA e o departamento de saúde local estão enlouquecendo”.

Os organizadores do evento disseram então que estão bebendo “pela própria saúde”, enquanto distribuíam a bebida não-pasteurizada.

Leia a matéria no site Food Safety News

Matéria traduzida por Gustavo Perucci

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DSV – Direção do Serviço Veterinário