Doação de cisternas: algo de doce no Semiárido

por Robin Geld

Essas crises têm surgido sempre de imprevisto, surpreendendo não só os pobres e heróicos habitantes do Nordeste, como também os próprios governantes que nunca souberam aproveitar as épocas de bonanças para acumular reservas capazes de enfrentar a iminência de crises futuras”. Luiz Augusto Vieira, citado por Josué de Castro em Geografia da Fome

Chegando pelos ares, setembro de 2009

De Belo Horizonte até o pouso na pista da Fazenda Colonial no norte de Minas, o piloto Gleison ia indicando vários locais ao longo do caminho: Cordisburgo, Diamantina, Serra do Espinhaço…  Os parceiros da Sertãobras tinham encontro marcado à tarde em Mandassaia, próximo a Janaúba, com beneficiados e executores do seu projeto de doação de cisternas para captação de águas da chuva para assegurar água de beber e cozinhar a 59 famílias durante os períodos de seca de outubro a abril. As expectativas e ânimo em torno de conhecer e avaliar in loco o trabalho e suas repercussões só aumentavam.

Sobrevoando as gerais e com tal destino em mente, não havia como não lembrar Drummond, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos… principalmente os dois últimos, com suas cenas marcantes do sertão, das secas, que lidas ou não, acharam jeito de fazer parte da alma brasileira. Das secas do nordeste e controvérsias em torno do seu combate, exemplo recente desvio do rio São Francisco e greve de fome do bispo, quem não ouviu falar? Tínhamos ainda as pesquisas preliminares da Sertãobrás em visitas a projetos na região de Montes Claros, junto ao CAA (Centro de Agricultura Alternativa) e Cáritas, da Rede ASA (Articulação do Semiárido), levantamento a campo de necessidades locais, e a partir da contratação do IDS (Instituto de Desenvolvimeto Sustentável) para execução do projeto Sertãobras, informações mais específicas passadas via internet ao longo dos meses sobre as cisternas e pessoal que as receberiam, da labuta diária destes no abastecimento de água para a família, e da visão esperançosa que a possibilidade das cisternas trazia.

O que encontraríamos? Seriam as cisternas solução substancial e teriam chegado a quem mais necessitasse?

Para a Sertãobras, e especialmente para seus inspiradores Vera e Gabriel, a região do semiárido e suas dádivas e tribulações é bastante familiar. Sertãobras, iniciativa de GDA para contribuir com o pequeno agro negócio e agricultura familiar, parte deste conhecimento. Mas das  “cisternas” e suas possibilidades muito havia a se revelar. Mesmo o Programa ASA de Um Milhão de Cisternas no semiárido a que o projeto Sertãobras se vinculava, era relativamente novo, tendo sido iniciado em 2003.

Montes Claros, Janaúba…

A vegetação ia se tornando cada vez mais seca, as pastagens amareladas, pontuadas de verde, e Vera começava anunciar nomes de algumas árvores, aroeira, umbuzeiro… Logo fazíamos pouso dos mais suaves levantando boas poeiras e um apreciativo soar de palmas.

Calor e nenhuma nuvem. Mas calor, dos secos e com brisas de quando em quando de bom agrado.

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