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Festival SerTãoBras do Queijo Artesanal

Cursos, Destaque, Queijo

24 de setembro de 2017

Com o objetivo de celebrar e valorizar o queijo artesanal e em especial discutir as condições de produção do queijo de leite cru brasileiro, a SerTãoBras e parceiros realizam nos dias 1o, 11 e 12 de novembro em São Paulo um festival que reúne produtores, comerciantes, chefs e consumidores que adoram queijo.

Estão programados cursos de formação (teoria e prática), o lançamento da segunda edição do Guia de Cura (versão revisada e ampliada), de autoria de Débora Pereira, Arnaud Sperat Czar e Sébastien Roustel, o lançamento da Associação Paulista do Queijo Artesanal, a mesa Redonda “Legalização dos Queijos de Leite Cru em São Paulo”, entre outros eventos.

PROGRAMA

Local: Rua Alberto Seabra, 1175, Pinheiros, São Paulo.

SEXTA FEIRA  – 10/11/2017

  • 10-12h: Mesa Redonda: Legalização dos Queijos de Leite Cru em SP.
  • 13h Abertura Oficial da Feira de Queijos Artesanais Brasileiros
  • 14-17h – Curso de Gestão de Boutique de Queijo com Hervé Mons e Débora Pereira 
  • 20h – Lançamento do Guia de Cura e animação cultural

SÁBADO – 11/11/2017

  • 9-12h e 14-17h : Curso de Cura de Queijos com Hervé Mons e Débora Pereira.
  • 19h: Lançamento da Associação Paulista do Queijo Artesanal e animação cultural.

DOMINGO – 12/11/2017

  • 9-12h: Oficina de queijos frescos com Hervé Mons e Débora Pereira.
  • 14-17h: Curso de Análise Sensorial com  Hervé Mons e Débora Pereira.
  • 19h: Animação cultural

(mais detalhes da programação em breve)

INVESTIMENTO

  • Curso de Gestão de Boutiques – R$260 – veja programa
  • Curso de Cura – R$ 530 – veja programa
  • Oficina de Produtos Frescos – R$260 – veja programa
  • Curso de Análise Sensorial – R$260 – veja programa
    Associados da SerTãoBras tem 5% de desconto.
    Inscritos em dois cursos têm 5 % de desconto, em três cursos têm 10% e em 4 cursos têm 15% de desconto.

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Burocracia brasileira corta uma top chef

Consumo, Cultura, Destaque

23 de setembro de 2017

Tradução da matéria Brazilian Bureaucracy Chops A Top Chef Foto: Léo Aversa

Nem Mesmo uma estrela Michelin poupa você de uma lei anacrônica.

No fogão, Roberta Sudbrack é uma estrela de rock. Uma chef autodidata que começou com um carrinho de cachorro-quente, comandou a cozinha do Palácio da Alvorada e foi eleita melhor chef da América Latina em 2015. Antes de a economia do Brasil desabar, e ela fechar seu épico restaurante no Rio de Janeiro, Sudbrack recebeu uma estrela Michelin.

Quando uma equipe de 15 inspetores invadiu seu stand no Rock in Rio, o problema não estava da cozinha de Sudbrack. Era a manifestação de algo muito familiar no Brasil: a tradicional e latente burocracia.

Afinal, ninguém havia sugerido que os 160 quilos de queijo artesanal e salsicha que os inspetores de saúde apreenderam no estande de Sudbrack, além de mais 850 quilos de ótimos ingredientes que interceptaram em sua despensa, estavam estragados. Sudbrack estava vendendo alimentos selecionados com os dedos, não embalados. Ela garimpou os melhores e mais confiáveis produtores em todo o Brasil, uma prática que adotou nos últimos 20 anos em pratos exclusivos, como o caviar vegetal e o quiabo defumado. Seu erro fatal? Um selo faltante, que no Brasil equivale a uma ofensa federal.

Ironicamente, as regulamentações brasileiras de alimentos são muito parecidas com as telenovelas do país, um rococó tecido pela superposição de autoridades municipais, estaduais e federais, cada uma com seus próprios papeis e regras. Os produtos despachados para a venda em um estado não podem ser vendidos em outro sem a chancela dos inspetores nacionais, um processo oneroso que os pequenos produtores não podem pagar e, de forma mais compreensível, evitar.

Assim, tudo que Sudbrack esperava oferecer durante os shows do festival mais pop do país – comidas gourmet para a marca pop gourmet – foram consideradas contrabando e destinadas ao lixo. Sudbrack decidiu encarar suas perdas (cerca de US $ 128.000) e fechou sua operação, uma dos quatro mais renomadas durante o Rock in Rio.

Um dos protestos mais sinceros veio genuinamente dos garis do Rio, encarregados de descartar alimentos em perfeito estado. Graças a uma ordem judicial, Sudbrack ganhou uma liminar para salvar o restante do estoque e, assim, destiná-lo à doação. Mas a mensagem da Vigilância Sanitária era clara: deixe-os comer burocracia. Uma ironia mais desagradável: o selo de inspeção federal que faltava à comida de Sudbrack já havia sido confrontado em um escândalo envolvendo carne contaminada de um grande indústria do país.

Os chefs e pequenos produtores do país uniram-se à Sudbrack e criticaram as barreiras legais arcaicas ao artesanato dos produtos locais. “Vergonhoso!”, eles choraram em um vídeo de protesto. Brasília não é completamente surda a esta questão. Em 2015, o Ministério da Agricultura modificou seus protocolos para isentar produtores artesanais ignorados pelos rigores “exclusivos” da inspeção federal. No entanto, porque a renúncia a este selo federal ainda configura roubo, “não teve o impacto que esperávamos”, disse Decio Coutinho, um consultor de saneamento para a Confederação Brasileira da Agricultura e Pecuária, um tradicional lobby de agricultores .

Coutinho deveria saber. Ele escreveu a nova regra enquanto estava no Ministério da Agricultura. Agora ele atua com produtores para tentar alterar a lei. “Os inspetores no Rio fizeram o seu trabalho legal, mas a questão é a de saber se a lei faz sentido”, disse ele. Tome como exemplo Torixoreu, cidade onde nasceu Coutinho, no Mato Grosso: os produtores locais são legalmente impedidos de vender os seus produtos para a cidade vizinha, separada por uma ponte. Enquanto isso, produtos industrializados (e de qualidade duvidosa) circulam livremente, sem nenhum impedimento.

Uma solução mais razoável para o Brasil seria padronizar os procedimentos de inspecção. “As regras são incoerentemente rígidas”, disse André Nassar, especialista em agricultura brasileira, da consultoria Agroicone. “Os estados devem confiar uns nos outros.” Esta mentalidade poderia garantir a lei respeitando os chefs (e seus fornecedores locais), que têm respaldo e credibilidade para proteger os clientes e continuar a servir os melhores sabores do Brasil.

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História dos queijos artesanais no Brasil 

Cultura, Destaque, Economia, Observatório do Queijo, Queijo, Sertão

31 de agosto de 2017

Por Cleube Andrade Boari, professor de Zootecnia a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) 

Provavelmente a produção de queijos no Brasil tenha acontecido desde a chegada das primeiras fêmeas mamíferas de interesse doméstico, como vacas, cabras e ovelhas, em nosso território. Entretanto, a construção de um histórico é bastante dificultada pela pouca quantidade de referências destas épocas. Em algumas obras raras, como Cultura e Opulencia do Brazil, por suas Drogas e Minas (1711), os três volumes de History of Brazil (1810), Viagem às Nascentes do Rio S. Francisco e pela Provincia de Goyas (1937), Diálogos da Grandeza do Brasil (1956) são feitas algumas menções à produção de queijos no Brasil, desde seus primórdios. Certamente, os autores destes livros vivenciaram situações distintas e, portanto, são comuns análises bastante diferentes. Este capítulo foi construído a partir de um mergulho na leitura destas obras, especificamente nos momentos em que a produção de queijos foi tratada. Além disto, outras leituras históricas e informações recebidas pela vivência com produtores de queijo artesanal foram sempre consideradas. O propósito é entender as principais técnicas utilizadas, especialmente no que diz respeito à história da cura dos queijos no Brasil. 

Na história é descrito como sendo o ‘Descobrimento do Brasil’ a chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500. Certamente a bordo das caravelas portuguesas Pinta, Nina e Santa Maria vieram alguns dos primeiros queijos para o novo continente, como alimento a tripulação. Não existem relatos de que os índios brasileiros produzissem queijos. Talvez este desafio fosse quase impossível a eles, pois não praticavam nenhum tipo de pecuária leiteira, por mais rudimentar que pudesse ser. Também não havia vacas, cabras e ovelhas nativas no território. Os índios viviam da caça, da pesca, do extrativismo e da produção de frutos, raízes e tubérculos. Quando o Brasil foi ‘descoberto’, as técnicas de produção e de cura de queijos já eram praticadas há muitos séculos em outras regiões do mundo. 

Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens.  Carta de Pero Vaz de Caminha, de 01/05/1500 

A partir do ‘descobrimento’, os interesses da metrópole portuguesa para a colônia brasileira foram basicamente extrativistas e monocultores, tão bem caracterizados nas finalidades dos ciclos econômicos da Cana-de-Açúcar e da Mineração. Não houve interesse no desenvolvimento da manufatura diversificada, inclusive alimentar, no Brasil. A ocupação humana foi basicamente suficiente para a manutenção e gestão dos ciclos econômicos. Era hábito comum o consumo de produtos importados da metrópole e de outros países da Europa, como os queijos. Nos livros apresentados anteriormente há menções à comercialização do queijo do Alem-tejo e de queijo alemão na colônia. 

Pode-se supor que, inicialmente, a pecuária se desenhou como coadjuvante nos ciclos econômicos da Cana-de-Açúcar e da Mineração no Brasil. Na medida em que as explorações aconteciam juntamente a elas foram instaladas a criação de cabras, ovelhas e, especialmente vacas com fins quase subsistencialistas de produção de alimentos. Porém, com a decadência destes ciclos produtivos, a pecuária assumiu papel de maior importância na geração de renda, ocupação e na produção local de alimentos. Neste aspecto, a produção de queijos ganhou notoriedade no dia-a-dia, especialmente por sua importância na conservação dos nutrientes do leite cru e para estabilizar o produto, permitindo o seu comércio e distribuição pelas inúmeras cidades que surgiam. 

Durante o ciclo da Cana-de-Açúcar, iniciado em meados do século XVI no litoral e agreste do nordeste brasileiro, houve imigração de povos para a colônia, especialmente portugueses e africanos trazidos, como escravos de diversas regiões da África. As primeiras vacas foram trazidas por Martim Afonso de Souza e sua esposa Ana Pimentel de Souza, em 1534. Estes animais foram especialmente utilizados para a geração de força motriz nos Engenhos de Trapiche e para o transporte com os carros de boi. Iguarias e alimentos, como queijos, destinados à alimentação do Senhor de Engenho e nobres da época eram trazidos da Europa. A produção local de leite era basicamente subsistente. Não era interesse da administração colonial, durante este ciclo econômico, o desenvolvimento da pecuária. Talvez a principal constatação deste fato tenha sido a publicação da Carta Régia de 1701, pela Coroa Portuguesa, pela qual se proibia a produção de gado em uma faixa de 10 léguas, aproximadamente 48 km, do litoral da costa. Com isto, a criação destes animais foi deslocada, ou empurrada, para o interior. Vacas e bois eram vistos, pelos Senhores de Engenho, como ameaça ao monocultivo da cana-de-açúcar, pois demandavam espaço e invadiam os canaviais para se alimentar. 

Na obra Diálogos das Grandezas do Brasil, cuja autoria provavelmente pertence a Ambrósio Fernandes Brandão, Senhor de Engenho e Escritor, que viveu de 1555 a 1618, é possível a leitura de trechos específicos do beneficiamento do leite nas regiões que ambientaram o ciclo da Cana-de-Açúcar, a saber: De vacas leiteiras havia currais, poucos, porque não fabricavam queijos nem manteiga; pouco se consumia carne de vaca, pela dificuldade de criar rezes em lugares impróprios à sua propagação, pelos inconvenientes para a lavoura resultantes de sua propagação, que reduziu este gado ao estritamente necessário ao serviço agrícola. Tem-se mais no diálogo entre Brandonio e Alviano, desta mesma obra, a saber: Brandonio: A vaca, sendo boa, é estimada nestas capitanias da parte do Norte, em quatro e cinco mil réis, e o novilho, que serve já para se poder meter em carro, a seis e a sete mil reis; e um boi já feito vale doze até treze mil réis. E êste é o prêço mais ordinário. Também se produzem na terra muitas ovelhas, carneiros e cabras, em tanto que das ovelhas parem muitas de um ventre dois carneiros, e das cabras a dois e a três cabritas. Alviano: Isso é coisa estranha; e pois tanto multiplica o gado, de semelhante espécie não deve de carecer a terra de queijos, nem de lã. Brandonio: Antes não há nela nenhuma coisa dessas, porque seus moradores não se querem lançar a isso; que podendo ter grande quantidade de lã de ovelhas, ainda que não fôra mais que para enchimento de colchões, se contentam antes de comprar a que trazem do Reino a três e a quatro mil réis; e da mesma maneira os queijos, E passa esta negligência tanto avante, que, com se dar semelhante gado grandemente na terra, não se querem dispor à cria dêle, contentando-se cada um de criar sòmente o que lhe basta para provimento de sua casa, que não pode ser maior vergonha. 

Nos três volumes de History of Brazil, considerada a obra mais extensa sobre Brasil colonial, de autoria do Historiador inglês Robert Southey, que viveu de 1774 a 1843, há uma realidade diferente daquela apresentada por Ambrósio Brandão. Obviamente, Robert Southey viveu em uma época pelo menos 100 anos mais recente que Ambrósio Brandão. Robert Southey relata um contexto produtivo de leite e de queijo mais vigoroso. Há menção à importação de vacas, ovelhas e cabras de Cabo Verde e da Europa, cujos leites eram utilizados para a produção de queijos e manteiga. Um interessante relato é feito no terceiro volume, a respeito de queijos produzidos no sertão de Pernambuco, os quais eram considerados como excelentes quando novos, mas se tornavam duros com o passar de quatro a cinco semanas. Conforme Robert Southey, as habilidades para a produção de lácteos não iam além destas.  

A produção do Requeijão do Sertão por escravos africanos e sua constante presença nas feiras também é relatada nestas obras raras. 

 

Provavelmente o queijo a que se referiu Robert Southey seja antepassado do Queijo de Coalho, cuja produção é antiga e com fortes laços artesanais, regionais e culturais. 

Mesmo tendo sido o antepassado do Queijo de Coalho o primeiro queijo brasileiro, não seria possível atribuir a sua produção o desenvolvimento das primeiras técnicas de maturação. É possível esta suposição, pois se trata esta de uma variedade de queijo tipicamente consumida poucos dias após a fabricação. As etapas básicas para a sua produção, mantidas até os dias atuais, compreendem a coagulação enzimática do leite, enformagem, prensagem, salga e estabilização. 

Em suas obras o Historiador Robert Southey fez outras rápidas menções a produção de queijos no Brasil colonial. Em 1784 relatou grande produção de queijos no Pará, a qual tratada, porém com qualidade inferior ao queijo do Alem-tejo. Relatou que havia algum tipo de produção de leite no extremo Sul do Brasil, mas que o gado tinha comportamento bastante selvagem e pouco leite era transformado, naquela época, em queijo ou manteiga. Relatou a produção de queijo de boa qualidade na região da baia do Paranaguá, Paraná, a partir de vacas, cabras e ovelhas. 

 Queijo no Para 

 

A produção de queijos aconteceu de forma mais acentuada durante o Ciclo da Mineração, ambientado na região dos atuais estados de Goiás, Mato Grosso, Bahia e, especialmente, Minas Gerais, a partir do final do século XVII. 

Durante a exploração do ouro e das pedras preciosas, muitos centros urbanos surgiram, dando origem a cidades como Diamantina, Serro, Ouro Preto, Mariana, Sabará, São João del Rey, Tiradentes e Paraty. Estes centros urbanos receberam muitos imigrantes, vindos de outras regiões do Brasil e também da Europa. Para atender a demanda alimentar das crescentes populações, produzir alimentos in situ foi fundamental. 

As dificuldades de rápido escoamento do leite cru das roças para as cidades, especialmente devido ao relevo montanhoso Minas Gerais, fizeram da produção de queijos a estratégia para conservar os nutrientes do leite cru e também para distribuí-los para o mercado consumidor, no lombo de animais. Com a decadência do Ciclo da Mineração, a pecuária leiteira passou a ser uma das grandes fontes de geração e riqueza para as regiões que ambientaram o extrativismo mineral. A produção destes queijos foi disseminada por diversas regiões, acompanhando o tropeirismo. 

Os queijos que surgiram a partir do Ciclo da Mineração são basicamente feitos da mesma forma até hoje. São produzidos com o leite cru de vaca, utilizando coagulante e o ‘Pingo’, que é um soro-fermento com microrganismos naturais e típicos da propriedade. O uso de prateleiras de madeira para a cura dos queijos também é mantida, como nos primórdios. Ao contrário disto, a utilização de bancas e formas de madeira foi proibida pelo Serviço de Inspeção. 

Acredita-se que a cura dos Queijos Minas Artesanal tenha sido empiricamente realizada nas roças, com a finalidade de tornar os queijos mais estáveis para que pudessem ser transportados em balaios e no lombo de animais, sem serem danificados durante o trajeto. Além disto, deve ter sido um procedimento para reunir uma quantidade de queijos para ser transportada. 

Talvez, comer um queijo fresco e branco fosse privilégio de quem morava na roça. Os queijos vendidos nas vendas das cidades eram mais amarelos, mais firmes e, supondo-se o tempo de cura e o tempo gasto para o transporte, provavelmente tinham sabor e aroma diferenciados, devido ao desenvolvimento e a sucessão dos microrganismos.  

Ouve-se falar, dos moradores mais antigos, que os queijos eram curados em prateleiras de madeiras nos porões das casas e até em gavetas de móveis de madeira. Alguns produtores costumavam amarrar os queijos em panos para curá-los. Utilizar prateleiras presas ao teto era uma estratégia para evitar o ataque de ratos. 

Queijos com aspectos diferentes, como a presença de fungos filamentosos e com a casca ‘molenga’ (queijo Casquinha da Canastra) costumavam ser rejeitados pelos tropeiros que faziam o comércio destes produtos. Alguns utilizavam a expressão ‘queijo doente’ ou ‘queijo com piolho’ para se referir a eles. Estes queijos geralmente eram consumidos na propriedade ou vendidos nas vendas com ‘tira-gosto’, após serem ‘descascados’. Os ‘queijos doentes’ ou ‘queijos com piolho’ provavelmente foram colonizados a cura, seja por fungos filamentosos, por leveduras, por bactérias e até ácaros. Certamente, muitas hidrólises aconteceram e muitos flavours devem ter sido neles experimentados. Em algumas regiões, estas colonizações são chamadas de ‘surgimentos’.  

Há de se considerar que, naquela época, devido a condições inadequadas de higiene e de estrutura, talvez não fosse possível maturar um queijo por períodos maiores. Entretanto, com os investimentos percebidos na atualidade, maturar queijos por longos períodos é bastante possível. 

Talvez um dos relatos mais detalhados da produção e comercialização do Queijo Minas Artesanal tenha sido aquele feito pelo Botânico e Naturalista Frances Augusto de Saint-Hilaire (1779 – 1853), em sua obra Viagem as Nascentes do Rio S. Francisco e pela Provincia de Goyaz. Saint-Hilaire faz menção a um queijo amarelo, com sabor adociacado e agradável, produzido na região de São João del Rey, Minas Gerais. 

O Queijo Minas Artesanal recém produzido apresenta sabor basicamente salgado e ácido. O sabor ácido decorre da fermentação da lactose por bactérias láticas, com consequente produção de ácido lático. Alguns dias após, é comum que este sabor ácido seja substituido por um sabor adocicado, devido a atividade de bactérias propiônicas. Somado-se este sabor à existência da casca amarela, o que Saint-Hilaire relatou é forte indicativo de queijo curado, talvez por um curto período de 15 dias, aproximadamente. 

A maturação de queijos artesanais em Minas perdeu importância, enquanto técnica de conservação, quando as trilhas e estradas de terra deram lugar à rodovias e quando as embalagens e o frio artificial surgiram. Estas mudanças dispensaram a necessidade de se maturar e os queijos se tornaram branco, com sabor basicamente salgado e ácido. Perdeu-se, em parte, o benefício da sucessão microbiana para a produção de flavour. Os microrganismos ‘artistas’ dos queijos perderam o tempo para completar sua obra. Todos as atuais experiencias com a maturação, realizadas nas roças e nas queijarias artesanais, são esforços dos produtores contemporâneos para resgatar a produção de flavour e textura e, até mesmo, para entender o que seus queijos poderiam ser. Vivemos o momento da maturação pela qualidade sensorial e, não apenas, da maturação pela conservação.  

A vinda de imigrantes para o Brasil, especialmente para as regiões sul e sudoeste, dentre os séculos XIX e XX, contribuiu para a introdução de varieddades e o aprimoramento da produção de queijos no Brasil. Exemplo de queijos que receberam esta valiosa contribuição são o Serrano (Santa Catarina), Colonial (Rio Grande do Sul), Queijo Prato (Minas Gerais), Queijo do Reino (Minas Gerais), Kochkäse (Santa Catarina), muçarela, dentre outros. 

A primeira fabrica de laticinios do Brasil – Companhia de Laticínios Mantiqueira, foi montada muitos séculos após o primórdio da produção leiteira e de queijos. Ela foi instalada no município mineiro de Palmyra, atualmente Santos Dumont, em 1888, por Carlos Pereira de Sá Fortes, com a contribuição do holandês Albert Boeke e dos Mestres Queijeiros Gaspar Long, João Kingma e J. Etienne. O principal queijo produzido foi o Queijo do Reino, de longa maturação. 

Após quase 500 anos da chegada das primeiras fêmeas leiteiras ao Brasil, os produtores de queijo artesanal vivem uma nova fase histórica, basicamente iniciada a partir do ano de 2002 e fortalecida a partir de 2012, no movimento denominado #salveoqueijoartesanal. 

Contemporaneamente, o trabalho muitos queijeiros, espalhados por todos os cantos do Brasil, destina-se a utilizar a cura não apenas como técnica de conservação ou de preparo para o transporte, mas sim de produção de sabores, aromas e texturas peculiares em seus queijos. Digamos que o momento é de se descobrir qual é o valor e qual é o resultado do trabalho dos microrganismos ‘artistas’típicos de cada propriedade! Tudo isto tem sido impulsionado por uma crescente aceitação dos queijos artesanais por segmentos de mercado bastante diferenciados, interessados em novos sabores, aromas e texturas, em terroir, em alimentos artesanais, locais e com conotações históricas e culturais. Há incessante busca por conhecimentos a respeito das condições de maturação mais apropriadas para privilegiar a atividade de microrganismos ‘artistas’ e desprestigiar bactérias indesejadas, ou reações indesejadas.  

 No sistema monetário colonial 1 oitava de corresponde a 3,585 g de ouro.  

Fonte: Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 

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Novos cursos da SerTãoBras no Festival do Queijo Minas Artesanal em BH

Consumo, Cultura, Cursos, Para Produtores, Queijo

8 de julho de 2017

O 1º Festival dedicado aos profissionais da cadeia do queijo artesanal mineiro promove também uma rica programação para o grande público amante dos sabores gastronômicos das montanhas de Minas. Ao lado do autêntico queijo de leite cru, azeites cervejas e vinhos artesanais vão se harmonizar sob o comando de chefs renomados e mestres queijeiros.

O Festival acontece de a 28 a 30 de julho na Serraria Souza Pinto e é uma realização do Sistema Faemg e do Sebrae. “A notoriedade do queijo e as características de cada região produtora garantem identidade ao produto, cada dia mais valorizado pelo consumidor brasileiro. Essa percepção de valor retorna ao produtor em forma de aumento de renda e melhoria da sua qualidade de vida”, conta Ricardo Boscaro, analista da Unidade de Agronegócios do Sebrae Minas.

Para os profissionais, o programa começa na sexta feira, dia 28, bem cedo, com um curso da Professora Delphine Gehant sobre Cura de Queijos. “O objetivo do curso é aprofundar os ensinos da cura de queijos, dando seguimento aos cursos que foram promovidos pela SerTãoBras em fevereiro de 2017, com apoio da Faemg” explica a professora.

Outro curso bem esperado pelos queijeiros comerciantes e curados é o curso “Gestão de boutiques de queijo” ministrado por Arnaud Sperat Czar, autor do livro Os Queijos de Leite Cru e Débora Pereira, mestra queijeira e jornalista da revista Profession Fromager. O curso tem duração de 3 horas. Os dois vão realizar também uma conferência sobre análise sensorial e degustação dirigida, no sábado à noite, entre 18h30 e 20h.

INSCRIÇÕES AQUI

Programe-se

28 de julho, sexta-feira

9 -12H
Curso: “Cura de queijo 1 – tecnologias de maturação para o queijo artesanal – aprofundamento em ambientes e salas de cura” – Delphine Gehant e Débora Pereira. Auditório 2, valor R$170

13h30 – 17h
Mesa Redonda: Aspectos Legais – Novo RIISPOA (MAPA) – Lei da Agroindústria de Pequeno Porte (MAPA) – Legislação estadual (IMA e Seapa) – Exigência da Maturação e inocuidade do queijo (Epamig) – Debate . Auditório 1. Gratuito

14h – 17h
Curso: Gestão de Boutiques de Queijo – Débora Pereira e Arnaud Sperat Czar. Auditório 2. Valor R$ 170,00

19 – 23h
Abertura Oficial do Festival do Queijo Minas Artesanal

29 de julho, sábado

8h – 9h15
O Queijo Artesanal como Patrimônio Imaterial (Iphan) Auditório 1 Gratuito

09h – 12h
Curso: Cura de queijo 2 – tecnologias de maturação para o queijo artesanal – aprofundamento em ambientes e salas de cura – Delphine Gehant e Débora Pereira Auditório 2 R$ 170,00

09h15 – 10h
A importância do fortalecimento das Associações Regionais (MAPA e Sebrae) Auditório 1

10h20 – 11h
Escrituração e controle nas queijarias (IMA e Emater) Auditório 1

11h – 12h
Queijo Artesanal e tributação (Sec. da Fazenda) Auditório 1

14h
Lançamento do Guia de Cura da Revista Profession Fromager – edição brasileira, por Arnaud Sperat Czar e Débora Pereira Tablado

14h – 17h30
Painel: Reconhecimento e Regularização das Regiões Produtoras de Queijo Artesanal: – Políticas de governo para a produção de queijos artesanais em Minas Gerais (Seapa) – Processo de reconhecimento das regiões produtoras de queijos (Emater) – Estudos e pesquisas necessárias para a legalização da produção dos diversos queijos artesanais produzidos em Minas Gerais (Epamig) – Depoimentos de três produtores de regiões já reconhecidas Auditório 1

15h – 18h
Clínica do queijo com Delphine Gehant 15h às 18h Clínica do queijo com Delphine Gehant
(consultas agendadas) Espaço Internacional R$ 80,00

15h30
Conservação e consumo do Queijo Minas Artesanal Tablado

17h
Harmonização de queijos e cerveja artesanal Tablado

18h30
Oficina de sabores: o Queijo Minas Artesanal e suas diferentes origens (com degustação) Tablado

18h30 – 20h

Análise sensorial e harmonização de queijos e bebidas por Arnaud Sperat Czar e Débora Pereira Auditório 2 R$ 170,00

Escolha do Melhor Queijo do Festival: a partir das 14h – votação do público

30 de julho, domingo

12h
Premiação dos ganhadores

14h30
Harmonização de queijos e cerveja artesanal Tablado

16h
Oficina de sabores: o Queijo Minas Artesanal e suas diferentes origens (com degustação) Tablado

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Jornal do Queijo da Revista Profession Fromager

França, Observatório do Queijo, Oropa, Para Produtores

21 de junho de 2017

Traduzido em português, a primeira edição é consagrada ao Mundial do Queijo e de Produtos Lácteos de Tours, que aconteceu entre 11 e 13 de junho de 2017.

JF – Jornal da revista Profession Fromager from SerTãoBras on Vimeo.

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Marc Janin apresenta os queijos da região do Comté

Cultura, Destaque, França, Oropa, Queijo

14 de junho de 2017

Em almoço especial para os produtores brasileiros na missão técnica Faemg/SerTãoBras, que reuniu 40 produtores, técnicos e pesquisadores de 3 a 14 de junho de 2017 na França, o campeão do queijo na França Marc Janin escolheu os queijos que falam mais forte ao seu coração: os feitos pelos produtores locais, seus vizinhos. Ele é nativo do Jura, região famosa pela produção dos queijos Comté, Morbier, Bleu de Gex e Mont d’Or.

Na ocasião, Marc provou os queijos mineiros. “Achei um bom sabor, diferente do que estamos acostumados aqui, muito curioso!” disse ele. Ganhou de presente um queijo Catauá, da produtora mineira Mariana Resende.

Marc Janin e os queijos do Jura from SerTãoBras on Vimeo.

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