MENU

Produção
Categoria

427

Fazenda Caxambu: tudo que você não sabia sobre o queijo super ouro de Araxá

Para Produtores, Política, Produção, Produtores-mapa, Queijo

24 de agosto de 2017

Queijos Senzala

O queijo Senzala, da Fazenda Caxambu, ganhou medalhas de ouro e super ouro no Salão Internacional do Queijo de Tours, na França, em junho de 2017. Mas a história começa muito antes. Em 1954, o casal Urias Abelardo Leite e Bárbara Cândida de Mendonça, avós da produtora Marly Leite, vencedora do concurso francês, se mudaram da Serra da Canastra para a Fazenda Caxambu em Sacramento, região queijeira de Araxá. Eles levaram a receita do queijo e o principal: o pingo.

“A minha avó começou a fazer os queijos com o pingo da Serra da Canastra e depois ensinou a meu pai,  que me ensinou e eu já ensinei a meus filhos. Joel, meu marido, também aprendeu com o pai, como somos primos a receita está em família e é uma tradição que já existe a muito tempo…” Marly Leite, da fazenda Caxambu

Marly e Joel investiram na qualidade e na tradição do queijo e logo os resultados começaram a aparecer. Antes, da vitória na França, o casal já levou primeiro, segundo e terceiro lugar nos concursos regionais de Araxá, em anos diferentes, e ganhou medalha de bronze com o queijo Fornalha (defumado) no concurso Prêmio Queijos do Brasil que aconteceu em São Paulo em 2016.

“As premiações que nosso queijo recebeu foram fruto de um trabalho coletivo, essa vitória não é só minha, é de toda essa equipe, teve o apoio da Emater, do Ima, da Aprocan, da SerTãoBras e da Galeria do Queijo…” Marly Leite.

Queijo Senzala com medalhas ouro e super ouro do concurso mundial de queijos na França.

Confira abaixo a entrevista que Marly concedeu à nossa redação.

LogoImagem118x50

 

STB: Como é seu gado e sua alimentação?

Marly: Eu costumo dizer que o nosso gado é o famoso “tatu com cobra”, o mais rústico, tem todas as cruzas. Eu procuro um gado com pouca produtividade para poder aguentar mais e o leite ser mais gostoso, eu gosto muito do Caracu, do Guzerá, do Gir, não nas raça puras. Temos no momento um rebanho de 80 cabeças e 37 vacas em lactação. A alimentação do gado é pasto nativo natura, pois a vegetação é predominantemente composta de capim gordura, nativo, mas as vacas adoram também o capim mombaça. Na época de seca, damos ração de milho, soja e farelo de algodão e sal mineral balanceado para que eles possam comer a bucha da braquiária que solta no inverno.

___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

STB: Como são as paisagens da fazenda Caxambu? 

Marly: A superfície é pedregosa e arenosa e temos abundância de água, são 18 nascentes, todas protegidas por matas ciliares. os exames de nossa água são excelentes e a água é potável sem precisar clorar.

___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

STB: Como você começou a fazer queijo?

Marly: Quando eu casei, em 1992, comprávamos queijo das fazendas vizinhas e levávamos para São Paulo e Ribeirão Preto. Fizemos isso durante 4 anos. Em 1996 fomos multados pela falta de nota fiscal pela Polícia Rodoviária, mas felizmente não perdemos a carga de queijos. Estava difícil trabalhar com transporte clandestino e então resolvemos começar a fazer nosso queijo. Nessa época nós vendíamos em média de 800 kg de queijo por semana, 500 feitos por nós e 300 coletados dos vizinhos. Até que em1998 tivemos a carga apreendida, jogaram fora nossos queijos, é um grande trauma você perder a sua produção de queijo de uma hora para outra. Foi muito difícil, tanto que paramos trabalhar com queijo por dois anos. Voltamos em 2001 com a decisão de cadastrar no IMA. Encontramos muita dificuldade, eu nem me lembro direitos todas coisas burocráticas que tivemos que cumprir. Somente em 2006 conseguimos o registro, mas um registro bem restritivo, que autoriza a comercialização somente em Minas e somente do queijo Araxá tradicional. Agora continuamos na luta para conseguir outro registro, do mesmo queijo, só que com outro tipo de maturação, pois nossos métodos atuais de cura ainda não estão regulamentados. E ainda estamos aguardando o SISBI (entenda mais na reportagem “Premiado na França, queijo mineiro tem vida clandestina no resto do país).

___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

STB: Quais as normas do IMA mais difíceis de seguir, na sua opinião?

Marly: Eu não entendo o motivo de precisar clorar a água da minha propriedade, que é puríssima. Nos nossos últimos exames, a água apresentou excelentes resultados, é potável. No entanto, mesmo com esse exame, o cloro é obrigatório. Depois da minha viagem à França, vi que existem outras formas de tratar a água (quando não é potável) sem deixar resíduos químicos, inclusive muitos queijos franceses proíbem o cloro na água e na limpeza das queijarias porque ele elimina as boas bactérias que precisamos para a boa fermentação do leite. Na proposta de alteração da Lei 20 549 apresentada pela Secretária de Agricultura no mês de agosto, o cloro continua como obrigatório. Isso não tem sentido.

___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

STB: Como você teve idéia de começar a curar queijo de outras formas?

Délphine, Marly e Débora Pereira.

Marly: Foi no curso de cura de queijos da Delphine Géhant e Débora Pereira que fiz em São Roque de Minas em fevereiro desse ano, essa formação me ajudou a ter uma nova visão. Eu sabia fabricar o queijo,mas nós nunca fomos preparados para maturar o queijo com regularidade. Em épocas do ano ele ficavam bom demais, cremoso e macio, um sucesso de vendas, mas nós não sabíamos o que fazer para manter aquele queijo sempre bom, outras épocas ele ficava duro e ressecado, daí os clientes reclamavam. Nesse curso aprendemos a controlar o ambiente de cura para o queijo ficar mais ou menos igual, como está acontecendo agora. Outra coisa é que trabalhamos a vida inteira para tirar o mofo que nasce naturalmente no queijo e, depois do curso, tivemos a ousadia de deixar para ver o que acontecia. Isso agradou o Falco, nosso cliente principal em São Paulo. Eu nem tenho palavras para poder agradecer esse santo curso que aconteceu nas nossas vidas, acho muito válido e muito importante. Quanto mais produtores fizerem este curso, para aprenderem a cuidar do seu queijo, vai refletir na melhora do queijo artesanal nacional como um todo.

___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

STB: Quais são seus projetos para o futuro?

Eu tenho dois grandes projetos para o futuro, aliás três. O primeiro é fazer uma cave, como os franceses chamam as salas subterrâneas de cura. Já começamos a obra, o local foi furado dentro do barranco, com dois metros de profundidade, em formato de “L” e as paredes serão revestidas de pedra. O segundo é abrir uma loja especializada para vender nossos queijos em Sacramento, minha cidade, para receber um público diferenciado que vem atraído pelo nosso queijo. O terceiro, um pouco mais difícil, é ajudar o produtor que está lá naquele fim de mundo a conseguir obter sucesso, acreditar no sucesso, aumentar sua auto-estima, atingir seus objetivos, como nós estamos conseguindo agora. Eu conheço muita gente que fabrica o queijo, mas não tem a consciência de como fazer corretamente, quero passar a nossa experiência para essas pessoas, quero que eles saibam a importância de fazer um curso de maturação para fabricar um queijo de boa qualidade. Eu acredito que cada pequeno produtor pode ter excelência na qualidade de seu queijo. Na minha opinião isso vai fazer com que esses produtores saiam da clandestinidade e possam assumir seu queijo com sua identificação e ter orgulho.

Marly Leite Super Ouro

Contato:

Facebook

(034) 99951-4402

 

Os vencedores do Mundial do Queijo da França

 

Ler artigo

990

Queijo coalho “Rosa do Sertão”: feito de leite de vaca zebu

Cultura, Produção, Queijo

17 de abril de 2017

«O Sítio Rio Negro preza por uma produção sustentável, por isso escolhemos criar o gado Gir Leiteiro», explica Michaela Demétrio. A propriedade é localizada na Serra do Maciço de Baturité, na cidade de Guaramiranga, estado do Ceará.

Nada é desperdiçado, tudo reciclado para produção mínima de lixo e resíduos. Uma pequena queijaria e uma produção de frutas desidratadas também fazem parte das atrações da propriedade.

Lá é produzido o queijo coalho maturado “Rosa do Deserto”   que tem como matéria prima o leite do gado zebuíno. É um queijo típico do nordeste, uma região seca, desprovida de chuvas e de umidade. Normalmente é um queijo mais salgado e muito se usa, no sertão, curá-lo dentro de um tonel com farinha de milho.

Para sua produção, o leite é cru e leva somente o coalho, sal e a pimenta calabresa.

 

Queijo “Rosa do Sertão” é maturado, de sabor levemente picante e de consistência firme. Ideal para tábuas de frios, para acompanhar cervejas e outras bebidas mais leves e frias.

Contatos:

Facebook 

www.sitiorionegro.com.br

Ler artigo

1858

A Nova Era Pós-Pasteuriana

Cultura, Economia, Observatório do Queijo, Política, Produção, Queijo

10 de novembro de 2016

Daniel Strongin, autor do site EnjoyCheese e ex-presidente do American Cheese Society, vive hoje no Rio de Janeiro. Ele explica em seu artigo porque o controle na produção de queijo deve vir desde o curral e como a prevenção é uma excelente alternativa para fabricar queijos de leite cru em segurança.

daniel2Em seu artigo “A Nova Era Pós-Pasteuriana: o novo conceito de política pública em segurança dos alimentos e leite cru” (PDF), Daniel Strongin,norte-americano de alma carioca, explica as mudanças que foram e vêm sendo implementadas no mundo através de políticas públicas na área de segurança dos alimentos. Ele identifica as melhorias decorrentes dessas mudanças, uma vez que influenciam na condição econômica dos pequenos produtores de queijos artesanais e na qualidade do leite cru.

“Essas mudanças abrem caminho para criação de novas ferramentas
de prevenção às contaminações em geral,
de melhoria dos processos contínuos de fabricação de queijos,
análise e quantificação dos riscos de fabricação e,
finalmente, de melhor harmonização com a natureza.”


___________________________________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

Qual a sua história com o queijo artesanal? Como foi seu envolvimento na American Cheese Society?

Caí de amores pelo queijo artesanal quando eu trabalhava como Chef, no início da minha carreira. Entrei para a American Cheese Society – ACS (Sociedade de Queijos Americanos) no começo dos anos 90, quando a sede era em San Francisco. Eu era Chef Gourmet de hotéis como o Ritz-Carlton, restaurantes e clubes e tinha a responsabilidade de comprar queijos para abastecer as cozinhas desses estabelecimentos. Então eu estava sempre buscando produtos diferenciados. Eu tinha mais de 240 queijos artesanais de pequenos produtores dos Estados Unidos na minha gama de produtos. Em 1994, eu organizei palestras e conferências na região de San Francisco e o conselho da ACS me pediu para assumir como Presidente, cargo que exerci por 3 anos. Depois disso, o governo da Califórnia me contratou para ajudar na criação de um novo nicho no mercado de queijos artesanais (feitos em fazendas) na California, serviço que fiz por 11 anos. Eu fico feliz por ter participado do renascimento dos queijos artesanais nos Estados Unidos. Depois eu trabalhei no Polo de Inovação em Laticínios do estado Wisconsin, ajudando pequenos produtores familiares a sobreviverem e terem lucros em seus negócios.

________________________________________________________________________________________________
LogoImagem118x50

Como você veio parar no Brasil e qual sua ocupação atual no Rio de Janeiro?

Eu fui casado com uma brasileira por 13 anos. Depois do divorcio, parei no Rio e não queria voltar para os Estados Unidos mais. Adoro Brasil. Atualmente, tenho uma empresa chamada Inventa Moda Organização e Planejamento, (Imoplanejamento.com) e continuo escrevendo uma coluna para o Jornal The Cheese Reporter. Durante os primeiros 5 anos depois que cheguei no Brasil, eu viajava uma vez por mês para atender clientes no México e nos Estados Unidos. Sou especialista em Produtividade e Gestão Integrada para micro e pequenas empresas, com foco em alimentos e valor agregado.

________________________________________________________________________________________________

LogoImagem118x50

Quais são seu planos para o futuro em relação ao queijo artesanal brasileiro?

O queijo artesanal é, para mim, um braço essencial da preservação da cultura e agricultura sustentáveis. Precisamos valorizar os produtores pequenos familiares e as culturas rurais. Vou ajudar como eu posso. Tenho um projeto potencial para criar uma loja para ajudar na exportação de queijos artesanais brasileiros para os Estados Unidos, onde eu tenho muito contatos. Eu animo um grupo sobre queijo no Facebook, o Enjoy Cheese, e meu site oferece um excelente curso online sobre queijos, o enjoycheese.net. (Atualmente somente em inglês, mas em breve em português.)

Leia o artigo na íntegra:

A Nova Era Pós-Pasteuriana: o novo conceito de política pública em segurança dos alimentos e leite cru” (PDF) 

 

Ler artigo

2240

OROPA, FRANÇA, CANASTRA

Destaque, França, Para Produtores, Política, Produção, Queijo

21 de janeiro de 2016

… buscando inspiração para o queijo de leite cru

manteiga2

Manteiga moldada em formas de madeira.

Sim, na França é possível, legalmente, transformar grande quantidade de leite cru coletado de diferentes agricultores familiares. Assim como utilizar utensílios de madeira e trabalho manual em produção artesanal em larga escala, mantendo o controle e a qualidade dos produtos lácteos.

Por Débora Pereira, 21 de janeiro de 2016

A aventura da queijaria Beillevaire começou há trinta anos em Machecoul, no noroeste da França, ao sul da costa Atlântica.

Agricultor de origem, Pascal Beillevaire vendia leite e creme da produção familiar em mercados perto de onde nasceu. Nas primeiras férias com sua esposa Claudine, eles percorriam regiões no interior da França e coletavam queijos para propor à sua clientela.

Desde 2003, criou uma grande queijaria especializada em produtos frescos, como iogurtes, queijos frescais, manteigas naturais e condimentadas, arroz doce, cremes caramelizados etc. Tudo artesanal. Hoje, os produtos são distribuídos nas suas mais de 40 lojas na França e Inglaterra, além de muitos outros pontos de distribuição no mundo. Mais de 300 funcionários cuidam da fabricação e vendas.

beille01

Pascal Beillevaire em seu laboratório de produtos frescos. Ao fundo, queijos camembert recheados com trufas, fungo subterrâneo muito apreciado na Europa.

 

O leite, dez mil litros por dia, é coletado em uma quinzena de fazendas que se situam perto da queijaria. Como uma grande parte dos produtos é feito de leite cru, sem nenhum tratamento térmico, a coleta é realizada logo após a ordenha. Os caminhões de Pascal passam duas vezes por dia nas fazendas. O leite de cada produtor não é misturado e a traçabilidade permite identificar a origem do leite.concha

Perguntado porque considera seu produto artesanal, se trabalha com uma quantidade tão grande de leite, ele respondeu:

“eu não misturo o leite dos meus fornecedores, o queijo é transformado e colocado nas formas manualmente, eu fabrico com leite cru… Eu sou um produtor artesanal”.

Recentemente, na França, o ofício de queijeiro foi inscrito na Chambre des Métiers (Câmara de Profissões, traduzindo em português) como um ofício “artesanal”, após uma grande campanha da Federação Nacional dos Queijeiros franceses solicitando ao governo esse estatuto. Isso significa que todos que trabalham com produção e cura de queijos podem reivindicar o título de artesanal.

Não existe, na França um texto que determine formalmente quantidade de leite transformado ou área física da queijaria para dar o título de artesanal. Por isso é possível encontrar queijarias grandes como a de Pascal, com mais de 12 mil m2 de instalações que transformam leite cru e se consideram artesanais.

Preparações lácteas para todos os gostos

Pascal investiu em um laboratório para fabricar diversas preparações queijeiras, como o queijo azul inglês Blue Stilton recheado com vinho do porto (receita no video ao lado), os camemberts recheados com trufas muito vendidos na época das festas de fim de ano e queijos frescos de vaca ou cabra preparados com uva passa ou ervas finas.

Ele também vende tábuas de queijo por telefone para festas e recepções, em diferentes formatos.

 

Cave, caverna, porão, sala de maturação

Saudosa maloca, maloca querida, Que dim donde nóis curemos os quêjos de nossa vida

cave

Sala de maturação de Pascal fica no subsolo, com 14 metros de comprimento.

Pascal Beillevaire cura seus queijos em uma sala subterrânea. No Brasil, como as técnicas de maturação são ainda incipientes para o queijo artesanal, não há um termo para denominar a sala onde os queijos ficam curando.

Tradicionalmente chamado de cave na França, esse espaço é conhecido por sua umidade quase saturada (higrometria entre 85 e 95%) e temperatura controlada de acordo com os tipos de queijo curados no local.

Esse ambiente favorece o desenvolvimento de fungos e mofos que dão sabor e personalidade aos queijos. Essas práticas de cura não são ainda regulamentadas pela legislação brasileira para queijo artesanal.

Na Serra da Piedade, perto de Belo Horizonte, os padres curam queijos em grutas naturais (Ver reportagem em vídeo). Produtores artesanais mais curiosos já experimentam técnicas diferentes.

Caverna ou porão, gruta ou maloca, a função de uma sala de maturação é controlar a velocidade da cura, assim como os tipos de fungos que serão desenvolvidos. É um espaço também para os cuidados pós fabricação: escovar, limpar com tecido, lavar com salmoura, soro ou bebidas alcóolicas.

Pascal prova o Canastra

“Nunca nem tinha ouvido falar!” confessa Pascal enquanto prova o Canastra do Otinho, fabricado em São Roque de Minas na Fazenda da Matinha. “É um queijo de sol, como os da Sardenha” ele comparou, “e tem a vantagem de se conservar muito bem”. Como conselho, ele sugere aos produtores artesanais brasileiros de testarem diferentes tecnologias de fabricação e cura para oferecer aos clientes uma gama mais diversificada de produtos .

*O título dessa reportagem é inspirado em Jair Silva, dono da seção “Oropa, França e Bahia”, que saía aos domingos, no “Estado de Minas”.

Ler artigo

3434

Pesquisa da UFMG garante: 14 dias de cura é suficiente para os queijos em Araxá

Cultura, Destaque, Observatório do Queijo, Política, Produção, Queijo

27 de novembro de 2015

mapa emater araxaBeneficiada por estudos científicos, a micro-região queijeira de Araxá passou à frente na corrida do ouro do queijo artesanal de Minas Gerais. Se o governo de Minas concordar, será o queijo de leite cru mais fresco vendido legalmente no Brasil.

Por Débora Pereira e Lívia Pinheiro, 27 de novembro de 2015

Enquanto na Serra da Canastra a maturação exigida é de 21 dias, tempo que o produtor que transforma leite cru precisa esperar para vender o seu queijo, e no Serro 17 dias, em Araxá pode ser regulamentada a exigência de apenas 14 dias de maturação. Durante esse período acontece uma verdadeira guerra microbiológica dentro do queijo, onde as bactérias boas do leite cru vencem as que teriam possibilidade de causar mal à saúde de pessoas já debilitadas. No terruá de dona Beja, agora ficou provado “cientificamente” que essa guerra só dura 14 dias. E o queijo artesanal é o vencedor.

Produtores dos municípios de Araxá, Campos Altos, Conquista, Ibiá, Pedrinópolis, Perdizes, Pratinha, Sacramento, Santa Juliana e Tapira poderão ter o direito de vender queijos mais frescos do que os fabricados em outras regiões queijeiras.

Dez pesquisadores de três laboratórios para estudar seis produtores e 84 queijos

mulheres poderosas

Bom exemplo: na equipe coordenada pelo professor Marcelo há igualdade no número de mulheres e homens. Na foto: Renata Castro examina amostra de queijo enquanto Lívia Pinheiro espera sua vez.

O projeto de pesquisa foi realizado em três laboratórios, o de Microbiologia de Alimentos da Escola de Veterinária-UFMG, o de Segurança Microbiológica em Alimentos, do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e no Laboratório de Genética Molecular de Protozoários Parasitas (UFMG). A equipe, entre estudantes de mestrado, doutorado, pós doutorado e um bolsista de iniciação científica foi coordenada por Marcelo Resende, professor da Escola de Veterinária.

Foram coletados dados nas fazendas de seis produtores de queijo artesanal de Araxá, todos cadastrados ao IMA. Embora a grande maioria na região seja de produtores informais (não cadastrados), a escolha por produtores cadastrados foi devido aos seus rebanhos leiteiros estarem comprovadamente livres de brucelose e tuberculose, segundo Marcelo Resende de Souza, além de elaborarem o queijo segundo as recomendações estabelecidas pelo IMA.

As coletas foram realizadas na época das chuvas e da seca do ano de 2014. Um total de 84 queijos foi analisado ao longo de 57 dias de maturação (nas duas estações, 42 queijos em cada estação). A partir das análises físico-químicas e microbiológicas, foi demonstrado que com 14 dias de maturação os queijos da região de Araxá já estava seguro para consumo.

Alguns resultados da pesquisa já foram publicados na dissertação de mestrado de Gilson Sales defendida em fevereiro de 2015 na Escola de Veterinária da UFMG que será publicada em breve no site da UFMG. O objetivo foi traçar o perfil microbiológico da água, do leite, do soro-fermento (pingo) e dos queijos, ou seja, estudar a biodiversidade de bactérias lácticas e patogênicas. Diferentes espécies de bactérias-ácido láticas foram encontradas, dentre elas, espécies de Lactococos e Lactobacilos que acidificam o leite, criam um ambiente favorável ao crescimento de outros micro-organismos importantes à maturação, e participam ao desenvolvimento de aroma e sabor ao longo da maturação.

Para Gilson Sales, é importante ressaltar a importância da obtenção de uma matéria-prima de qualidade: “somente com um leite de altíssimo padrão é possível produzir um queijo artesanal seguro para a população. A qualidade do queijo envolve ainda a realização das vacinações e exames obrigatórios no gado a fim de obter um rebanho saudável, o exame de saúde dos trabalhadores e o cumprimento das boas práticas de fabricação na queijaria” complementa o autor.

Abaixo, bactérias com as quais estão sendo realizados testes in vitro e in vivo para comprovar se podem ser consideradas probióticas.

 

Lactobacillus plantarum

Lactobacillus plantarum.

 

Lactobacillus rhamnosus

Lactobacillus rhamnosus

 

As fotos acima são de Givanildo Silva, que defenderá sua dissertação em 11 de janeiro de 2016 sobre propriedades probióticas in vitro de bactérias ácido láticas isoladas de queijo Minas artesanal de Araxá.

Esse primeiro estudo realizado na região de Araxá  é um passo importante para identificação de bactérias lácticas, imprescindíveis para a maturação, tanto pelas características sensoriais (de acentuar o gosto, o sabor) quanto pela qualidade da segurança do queijo, pois podem proteger contra o crescimento de bactérias que poderiam eventualmente causar algum mal estar.

mapa araxa

Dando continuidade ao projeto, atualmente estão sendo realizadas análises com essas bactérias isoladas do queijo Minas artesanal da região de Araxá, com o intuito de descobrir se elas possuem propriedades probióticas e avaliar possíveis benefícios da sua ingestão para a saúde do consumidor. Espera-se ao final da pesquisar traçar um perfil das bactérias encontradas nesse produto tão importante para a economia e cultura de Minas Gerais e outros artigos e resultados serão ainda publicados.

Segundo Thales de Almeida, diretor técnico do IMA, esses resultados poderão ser utilizados para diminuir para 14 dias o período de maturação da microrregião de Araxá: “Temos a expectativa de no máximo até junho de 2016 validar essa pesquisa. Atualmente, a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, IMA e Emater tem se reunido para avaliar a atualização da legislação e propor novos estudos científicos necessários”, explica Thales.

Estudar probióticos é usar a natureza a nosso favor

lactobacillus

Lactobacillus

Probióticos são micro-organismos vivos que quando consumidos em quantidades adequadas, exercem efeitos benéficos na saúde das pessoas e animais. Geralmente são encontrados em produtos lácteos como leites fermentados – e naturalmente em queijos feitos de leite cru.
Nos últimos anos, vários estudos têm demonstrado que os micro-organismos probióticos podem inibir a multiplicação de patógenos, têm efeito positivo no tratamento de infecções entéricas e doenças alérgicas, além de proteção contra infecções do trato urogenital.

intestinoNos Estados Unidos e Europa, bactérias tem provocado uma revolução culinária 2.0 e a revisão de hábitos de consumo. O intestino, que sempre foi um órgão um pouco desprezado em relação ao coração ou ao fígado, tem ganhado destaque. Recentemente preocupados com os distúrbios intestinais causados pela vida moderna, consumidores mais esclarecidos estão optando por não comer alimentos pasteurizados para cultivar a biodiversidade de suas floras intestinais. O livro O Charme Discreto do Intestino, que explica a importância de ingerir boas bactérias, escrito pela jovem médica alemã Giulia Enders vendeu mais de um milhão de exemplares e está sendo traduzido para mais de 30 países.

Para  o público mais especialista, estudos sugerem que probióticos podem ajudar a aumentar a qualidade de vida de pessoas com HIV/AIDS, particularmente em casos onde a diarreia é uma condição debilitante (Patel et al., 2013). A pesquisa realizada com os queijos de Araxá visa traçar um perfil probiótico de alguns isolados de bactérias láticas provenientes do queijo artesanal. Tais análises estão em etapa de conclusão e, segundo os pesquisadores, os resultados tem-se mostrado bastante animador.

Entrevista com Marcelo Resende de Souza

MARCELO

Marcelo Resende de Souza, 47 anos, está à frente das pesquisas sobre o queijo de leite cru em Minas Gerais.

LogoImagem118x50

Quando você começou a se interessar por queijos de leite cru e qual a sua motivação?

A minha família é da região de São João del Rei e desde criança conhecia os queijos feitos com leite cru, especialmente quando acompanhava meu avô nas compras no Mercado Municipal e em pequenas lojas em São João que vendiam esse tipo de queijo. O queijo fresco era utilizado para consumo nas refeições como café-da-manhã e lanches e o produto maturado (“curado”) era utilizado na preparação de pão-de-queijo, tortas e massas. Depois, na UFMG me interessei pelos trabalhos com qualidade de leite e derivados. Percebendo que havia poucas informações científicas sobre o queijo Minas artesanal, decidi dedicar minhas pesquisas à sua qualidade e conhecer sua identidade.

LogoImagem118x50

Em poucas palavras, qual o panorama atual da pesquisa sobre queijos de leite cru ? Como você avalia os investimentos públicos em pesquisa para o queijo artesanal em Minas Gerais atualmente?

Há ainda muito o que se estudar sobre os queijos elaborados com leite cru, produzidos em Minas Gerais. Principalmente, em relação à identidade de cada tipo de queijo, pois existem inúmeros fatores que determinam diferenças entre os queijos artesanais: como localização geográfica da queijaria, alimentação e raça do rebanho leiteiro, micro-organismos presentes nos pingos, tipo de processamento, maturação, época do ano, dentre outros. Então, precisamos conhecer as influências desses fatores e caracterizar os diferentes queijos para que a identidade dos mesmos possa ser conhecida e preservada, além de auxiliar os produtores na obtenção de um queijo saboroso, seguro para o consumidor e que possa gerar fonte de renda para milhares de famílias. Adicionalmente, no futuro, poderíamos ter a denominação de origem protegida cada queijo mineiro, como existe na França. Assim, teríamos, as identidades dos queijos Minas artesanais da Canastra, de Araxá, da Serra do Salitre, do Cerrado, do Serro, das Vertentes e do Triângulo conhecidas e preservadas.
Infelizmente, as verbas liberadas pelos órgãos públicos para a realização de pesquisas têm sido muito pequenas e insuficientes para desenvolvermos os trabalhos que seriam necessários para atingir aos objetivos citados.

LogoImagem118x50

Qual são os futuros projetos para o queijo de leite cru no laboratório da UFMG ?

Estamos estudando os padrões de qualidade e identidade desses queijos, o período de maturação ideal para cada um, bem como pesquisando as bactérias benéficas existentes neles.

LogoImagem118x50

Diante do grande consumo de queijo de leite cru fresco (informal), que é notório no Brasil, você pessoalmente acredita que há riscos de epidemia por contaminação queijeira? Você tem conhecimento da existência de dados epidemiológicos que comprovem mortes ou internações por queijo de leite cru ?

O queijo elaborado com leite cru precisa ser produzido com bastante cuidado, observando controle de doenças nos rebanhos leiteiros (brucelose e tuberculose principalmente), a ordenha deve ser feita de forma higiênica, bem como o processamento do queijo nas queijarias. Adicionalmente, o processo de maturação contribui não somente para o produto desenvolver sabor especial, mas também ocorrem modificações químicas e físicas nos queijos que dificultam ou inibem o desenvolvimento de micro-organismos indesejáveis. Portanto, cientificamente, podemos dizer que os queijos elaborados com leite cru devem ser maturados.

Os queijos frescos, elaborados com leite cru e sem a adição de pingo, não possuem a mesma segurança que os queijos elaborados com leite cru adicionados de pingo e maturados.

O serviço de notificação epidemiológica do Brasil é deficiente e, aliado à esse fato, muitas pessoas acometidas por algumas doenças resultantes do consumo de alimentos contaminados por micro-organismos patogênicos ou toxinas não procuram serviço médico. Dessa forma, os dados disponíveis subestimam o problema que não pode ser negligenciado pelos profissionais da área de saúde que têm como missão zelar pela saúde da população.

Há, na literatura científica, descrições de inúmeros casos de surtos de doenças transmitidas pelo consumo de alimentos (incluindo queijos elaborados ou não com leite cru, mas principalmente queijos frescos, feitos com leite cru), no mundo inteiro. Dessa forma, o consumo de queijos frescos deve ser orientado para aqueles produtos elaborados com leite pasteurizado. Além disso, não devemos afirmar que a maturação garante a segurança alimentar dos queijos, sem ser acompanhada das outras medidas de segurança mencionadas anteriormente.

Quem é quem na pesquisa

Pesquisadores

Da esquerda para direita, primeira fila: Lívia, Renata, Maria Carolina, Gabriela e Givanildo. Segunda Fila: Gilson, Marcelo, Letícia, Gustavo e Felipe.

Professor Marcelo Resende: Coordenador dos projetos;
Lívia Pinheiro (pós doutorado): Identificação molecular das bactérias lácticas dos queijos de Araxá;
Renata Castro (doutorado): Caracterização microbiológica e físico-química de queijos artesanais da região do Campo das Vertentes;
Letícia Oliveira (doutorado): Avaliação da atividade antagonista de bactérias lácticas isoladas de queijo artesanal da região do Campo das Vertentes contra patógenos;
Maria Carolina Paes (doutorado): Elaboração de leites fermentados com bactérias lácticas isoladas de queijo artesanal da região da Canastra;
Gabriela Silva (doutorado): Avaliação da atividade antagonista de bactérias lácticas isoladas de queijo artesanal da região da Canastra contra patógenos;
Felipe Machado (doutorado): caracterização da comunidade microbiana de queijos Minas artesanal da região da Serra do salitre;
Gilson Sales (mestrado): Caracterização microbiológica e físico-química de queijos artesanais da região de Araxá;;
Givanildo Silva (mestrado): Caracterização probiótica de bactérias lácticas isoladas de queijo artesanal de Araxá;
Gustavo Valente: bolsista de Iniciação Científica da FAPEMIG e estudante do curso de graduação em Medicina Veterinária.

OPINIÃO: o artigo 928 do RIISPOA e a inocência dos “aplicadores” das leis

Por Leôncio Diamante, colaborador da SerTãoBras

Essa pesquisa realmente é uma boa notícia para o pequeno mundo do queijo artesanal, pois pode motivar outras regiões e pesquisadores a alcançar um número ainda menor de dias de maturação. E assim satisfazer ao público que prefere queijos mais frescos.

Acredito mesmo que, em breve, os cientistas chegarão ao que está escrito no RIISPOA, Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal. Assinado por Getúlio Vargas em 1952, esse regulamente é famoso por apresentar mais de 950 regras para os produtores, um número tão extenso que supomos que os leitores não tem ânimo de chegar até o final da leitura. Só isso pode explicar a ignorância dos fiscais agropecuários à respeito do artigo 928, que estabelece claramente que queijos Minas de leite cru podem ser vendidos com 10 dias de fabricação:

Art. 928 – Enquanto perdurar o estado incipiente da indústria de queijo “Minas” toleram-se as seguintes variedades deste produto;

1 – queijo Minas comum;
2 – queijo Minas pasteurizado (de leite pasteurizado);
b) queijos curados
1 – queijo Minas semiduro (tipo Serro)
2 – queijo Minas duro (tipo Araxá)
queijo de coalho (tipo Nordeste brasileiro)
§ 1º – Todos esses queijos podem ser rotulados “Queijo Minas”, sem necessidade de especificação da variedade.
§ 2º – Podem ser fabricados com leite integral ou desnatado, cru ou pasteurizado; massa crua, prensada ou não, suficientemente dessorada, salgada e maturada, conforme o caso.
Tais queijos devem apresentar as seguintes características:
1- formato: idêntico ao do queijo Minas (padrão), permitindo-se, para queijo de coalho, formato quadrangular;
2- peso: idêntico ao do padrão, podendo atingir até 1.500g (um quilo e quinhentos gramas) no pasteurizado;
3- crosta idêntica á do padrão, podendo ser fina, rugosa ou não formada nos frescais; espessa ou resistente nos curados; 4- consistência: idêntica à do padrão, podendo ser macia, não esfarelante nas variedades frescais; firme, própria para ralar, nas variedades duras;
5- textura: idêntica à do padrão;
6 – cor: idêntica à do padrão, permitindo-se o branco claro nas variedades frescais e branco-amarelado nas variedades curadas;
7- odor e sabor: característicos, ácido agradável e salgado, nas variedades frescais e semicuradas; tendente ao picante nas curadas.
§ 3º – Estes queijos devem ser expostos ao consumo devidamente dessorados, quando se trate das variedades frescais, as quais não podem obter mais de 84 (oitenta e quatro) pontos no julgamento.
§ 4º – Nas fontes de produção, todos devem ser identificados, com indicação de origem (iniciais de proprietários da queijaria ou seu número de relacionamento), em rótulo, placa metálica ou declaração.
>§ 5º – No transporte, devem ser embalados de maneira apropriada, e protegido o produto de contaminações e deformações.
§ 6º – O queijo Minas frescal, de leite pasteurizado, só pode ser enviado aos atacadistas a partir do terceiro dia de fabricação, desde que em embalagem especial; as demais variedades só podem ser expedidas após 10 (dez) dias de fabricadas.

Esse artigo sofreu somente uma modificação: ele previa oito dias de maturação em 1952, mas foi modificado para 10 dias em 1962.
Depois disso, em 1996, veio a portaria 146 do MAPA, que determina 60 dias de maturação. Mas, como pode uma portaria de Ministério sobrepor-se a um decreto federal, ou seja, à ordem do Presidente da Republica? Isso fere a hierarquia do ordenamento jurídico. E os fiscais interpretam a Lei como querem para apreender queijos, como aconteceu recentemente em São Roque de Minas.

Mais recentemente, em Minas Gerais, foi aprovada a lei 20.549/2012  reconhecendo a denominação de queijo “meia-cura” como aquele que parou de dessorar, em tempo de maturação inferior ao definido para o queijo Minas Artesanal. O IMA nunca regulamentou nem aplicou essa lei, alegando ‘falta de pesquisa científica’ em relação aos dias de maturação.

Por outro lado, existe uma descrença generalizada na ciência, como aponta o filósofo Bruno Latour. Com tanta informação disponível por diferentes canais, porque o brasileiro não é considerado capaz de fazer suas próprias escolhas íntimas, se quer comer ou não comer um queijo de leite cru? O MAPA transforma o que eles chamam de “defesa sanitária” em um verdadeiro ataque aos pequenos produtores de queijos artesanal.

Para ajudar o consumidor a escolher, o MAPA poderia inserir a mensagem na etiqueta dos queijos de leite cru fabricados por produtores informais, como acontece no cigarro, dizendo que esse produto pode provocar uma dor de barriga. Pode mesmo citar todas as bactérias que potencialmente poderiam se desenvolver em um produto vivo, como sugere o produtor Luciano Carvalho, de Medeiros no filme “O Mineiro e o Queijo”. Assim, o consumidor teria o direito de escolha. Só que a publicidade não seria acompanhada de fotos, como no cigarro, pois não há registro de nenhum doente terminal por ter comido queijo para ser fotografado.

Foto montagem. 31/12/1954: O presidente Getúlio Vargas (ao centro), o vice-presidente, João Café Filho (à esq.), e, o ministro da Justiça, Tancredo Neves.

 

Ler artigo

2517

Nota de repúdio ao MAPA em defesa da produção artesanal de produtos de origem animal

Consumo, Para Produtores, Política, Produção, Queijo

22 de novembro de 2015

Endereçada à Casa Civil, à Secretaria de Governo da Presidência da República, ao Ministério da Cultura e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (por Slow Food)

Os produtores, agricultores familiares, suas associações, cooperativas da agricultura familiar, movimentos e organizações signatários deste documento reivindicam a ampliação dos processos participativos na construção de regulamentações específicas para a produção e processamento em pequena escala de produtos de origem animal. Esta produção – como leite e derivados, carnes e embutidos, aves e ovos, pescados, mel – está enraizada no cotidiano de milhares de famílias e de pequenas propriedades rurais em todas as regiões do Brasil, sendo componente importante de sua alimentação e renda. Envolve um vasto repertório de conhecimentos tradicionais, da produção ao processamento, comercialização e consumo. Alguns desses saberes estão associados a modos de ser e de viver, a formas de sociabilidade e sentidos de identidade, transmitidos e aperfeiçoados de geração em geração.

Um exemplo paradigmático são os queijos artesanais de leite cru, que fazem parte da sobrevivência econômica e do modo de vida de milhares de famílias em diferentes regiões do país, movimentando a economia de pequenos municípios e fazendo parte da dieta cotidiana e da culinária tradicional de comunidades rurais e urbanas. O Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas já foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil, por meio do registro no Livro dos Saberes e o registro de outros modos de fazer queijo artesanal encontra-se em estudo.

A legislação sanitária atual, ao não diferenciar escalas de produção e circuitos de distribuição, se sobrepõe à realidade existente, criando barreiras para o acesso aos mercados. Os produtos de origem animal estão atualmente submetidos ao RIISPOA – Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal, que segue parâmetros do comércio internacional e é voltado para o controle sanitário de grandes escalas de produção e de processamento, de transportes a grandes distâncias e longos tempos de conservação e armazenagem. O RIISPOA é inadequado à produção artesanal, à agricultura familiar e às pequenas agroindústrias de alimentos, por ser baseado em escalas, parâmetros e valores industriais.

A organização e mobilização de pequenos produtores artesanais e da agricultura familiar de todo o país, como também de associações de consumidores e prefeituras, resultaram no reconhecimento da necessidade de regulações sanitárias específicas para a produção e comercialização em pequena escala. No caso dos produtos regulados pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), grandes avanços foram alcançados com a forma participativa como foi construída a RDC 49/2013, que trata da inclusão produtiva com segurança sanitária de pequenos empreendedores, da agricultura familiar e da economia solidária.

No caso dos produtos de origem animal, regulados pelo MAPA/DIPOA (Ministério da Agricultura / Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal), diversas tentativas de construção de uma legislação diferenciada vêm sendo feita pela Secretaria da Agricultura Familiar, do Ministério do Desenvolvimento Agrário – SAF/MDA. Recentemente, conquistou-se a aprovação do Decreto nº 8.471, de 22/06/2015 e da IN nº 16, de 23/06/2015, que alteram o regulamento do SUASA (Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária) e estabelecem algumas normas específicas de inspeção e fiscalização sanitária de produtos de origem animal, reconhecendo as agroindústrias de pequeno porte, importante segmento da produção, sendo considerados um avanço importante para as pequenas agroindústrias e para a agricultura familiar.

No presente momento, o Decreto 8.471/2015 está em processo de regulamentação pelo MAPA, através de Instruções Normativas para cada cadeia produtiva de origem animal (leite, carnes, ovos, pescados e mel), começando pela IN para agroindústrias de pequeno porte de leite e derivados. No entanto, este processo está se dando de forma pouca democrática e transparente e sem a participação de representantes da agricultura familiar e demais organizações civis envolvidas com o tema. Uma minuta da IN para leite e derivados, elaborada pelo MAPA/DIPOA, foi encaminhada pelo MDA/SAF aos representantes dos movimentos sociais, mas não foi dado o devido prazo para discussão e recolhimento de contribuições das associações de produtores. Foi vetada pelo MAPA a participação de representantes dos agricultores familiares e a única representação de produtores lácteos convidada pelo MAPA foi a associação Viva Lácteos, composta por diversas grandes empresas, incluindo multinacionais, que não representam as agroindústrias artesanais de pequeno porte. É de interesse destas grandes agroindústrias dificultar ao máximo as exigências para as pequenas agroindústrias de leite e para a produção artesanal de queijos, inviabilizando a concorrência e fazendo com que estes continuem como meros fornecedores das grandes indústrias.

Da forma como está, a minuta da IN proposta pelo MAPA tornará inviável a maioria dos empreendimentos de pequeno porte, inclusive financiados pelas políticas voltadas para as agroindústrias familiares. A minuta define, logo de início (Art. 3º) que “o estabelecimento agroindustrial de pequeno porte de leite e derivados é classificado como de alto risco.” Consideramos este ponto de partida discriminatório e segregacionista: não existe comprovação prática e/ou científica de que os modos tradicionais de produzir leite e fazer queijos artesanais de leite cru em pequena escala sejam de alto risco a priori, assim como os demais produtos de origem animal.

A minuta da IN do leite revoga artigos importantes da IN 16/2015 e é eivada de exageros, com a exigência de investimentos e custos desproporcionais para as pequenas escalas de produção, como análises e controles industriais que aumentam os custos de produção; automatização de algumas linhas de processamento; obrigatoriedade de laboratório interno ou realização das análises em laboratórios terceirizados sem previsão de qualquer subsídio; limites de produção sem qualquer embasamento técnico; dentre outros.

Esta forma de proceder certamente terá consequências desastrosas para as pequenas agroindústrias, não somente a cadeia de leite e derivados como todas as demais, que serão discutidas em seguida. Acreditamos que a construção de uma legislação específica para os produtos artesanais e para os pequenos empreendimentos de produção de alimentos, deve ser assumida como uma ação complexa que envolve valores, interesses econômicos e potenciais conflitos e que precisa levar em conta as diversidades de realidades locais e regionais. As próprias definições sobre risco e qualidade dos alimentos precisam abranger, além dos conhecimentos científicos (o mais interdisciplinarmente possível), o interesse público e as diversas formas de conhecimentos advindos da experiência.

Uma legislação específica para os produtos artesanais e para os pequenos empreendimentos de produção de alimentos não pode prescindir da cultura e do “saber-fazer” tradicional. A associação do conhecimento técnico-científico aos saberes de quem faz e consome é possível e será sempre mais realista e produtiva, conforme verificamos nos processo de discussão e implementação da RDC 49/2013 da Anvisa.

Assim, os agricultores familiares, suas associações, cooperativas da agricultura familiar, movimentos e organizações signatários deste documento reivindicam a ampliação dos processos participativos na regulamentação do Decreto nº 8.471/2015, com a viabilização da participação de representantes dos produtores e agricultores familiares e de todos os setores interessados, tanto para a cadeia de leite e derivados como para todas as demais cadeias previstas.

Subscrevem a presente nota:
ALDEIA MUNDO LTDA
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CRIADORES DE OVINOS DE RAÇAS LEITEIRAS – ABCOL
ASSOCIAÇÃO DOS PEQUENOS AGRICULTORES DO OESTE CATARINENSE – APACO
ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DO QUEIJO CANASTRA EM MEDEIROS – APROCAME
ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES E AGROPECUARISTAS DA MAJOR GERCINO
ASSOCIAÇÃO REGIONAL DOS CRIADORES E PROTETORES DA RAÇA BOVINA MONTBELIARDE OESTE SC
CASA COLONIAL – SEARA / SC
CENTRAL DAS COOPERATIVAS DE ACOMPANHAMENTO TÉCNICO E EXTENSÃO RURAL – CENATER
CENTRAL DE COOPERATIVAS E EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS – UNISOL BRASIL
CENTRO DE ESTUDOS E ASSESSORIA – CEA
CENTRO TECNOLOGIAS DA ZONA DA MATA – CTA
CONFEDERAÇÃO DAS COOPERATIVAS DE REFORMA AGRÁRIA DO BRASIL – CONCRAB
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA – CONTAG
COOPERAÇÃO E APOIO A PROJETOS DE INSPIRAÇÃO ALTERNATIVA – CAPINA
COOPERATIVA AGROPECUÁRIA DOS PRODUTORES DE DERIVADOS DE LEITE DO ALTO PARANAÍBA – COOALPA
COOPERATIVA CENTRAL DE LEITE DA AGRICULTURA FAMILIAR COM INTERAÇÃO SOLIDÁRIA – SISCLAF
COOPERATIVA CENTRAL DE LEITE DA AGRICULTURA FAMILIAR COM INTEREÇÃO SOLIDÁRIA DO OESTE DO PARANÁ – SISCOPLAF
COOPERATIVA CENTRAL DO CERRADO
COOPERATIVA DA AGRICULTURA FAMILIAR DE XANXERÊ
COOPERATIVA DA AGRICULTURA FAMILIAR INTEGRADA DO PARANÁ – COOPAFI CENTRAL
COOPERATIVA DE CREDITO RURAL SEARA – CREDISEARA
COOPERATIVA DE LEITE DA AGRICULTURA FAMILIAR COM INTERAÇÃO SOLIDÁRIA – COORLAF CENTRAL
COOPERATIVA DE PROCESSOS ALIMENTAR DA AGRICULTURA SOLIDÁRIA – COOPASOL
COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGROINDUSTRIAL FAMILIAR DE SEARA – COPAFAS
COOPERATIVA DE PRODUÇÃO E CONSUMO DOS PRODUTORES E DAS AGROINDÚSTRIAS FAMILIARES DE SEARA – COOPASE
COOPERATIVA DE PRODUTORES ORGÂNICOS GRANLAGO – VERA CRUZ DO OESTE / PR
COOPERMAJOR – COOPERATIVA AGROINDUSTRIAL DE MAJOR GERCINO
CRIADORES E ASSOCIADOS DOS CARIRIS VELHOS – CASCAVEL
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA AGRICULTURA DO ESTADO DO AMAPÁ – FETTAGRAP
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA AGRICULTURA FAMILIAR – FETRAF
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO DISTRITO FEDERAL E ENTORNO – FETADFE
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DA BAHIA – FETAG-BA
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DA PARAÍBA – FETAG-PB
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE ALAGOAS – FETAGAL
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE GOIÁS – FETAEG
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE MATO GROSSO – FETAGRI-MT
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL FETAGRI-MS
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE MINAS GERAIS – FETAEMG
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE PERNAMBUCO – FETAPE
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE RONDÔNIA – FETAGRO
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE RORAIMA – FETAG-RR
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE SANTA CATARINA – FETAESC
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE SÃO PAULO – FETAESP
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE SERGIPE – FETASE
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DE TOCANTINS – FETAET
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO ACRE – FETACRE
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO AMAZONAS – FETAGRIAM
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO CEARÁ-FETRAECE
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO – FETAES
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO MARANHÃO – FETAEMA
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO PARÁ – FETAGRI-PA
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO PARANÁ – FETAEP
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO PIAUÍ – FETAG-PI
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – FETAG-RJ
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – FETARN
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA AGRICULTURA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – FETAG-RS
FÓRUM BRASILEIRO DE ECONOMIA SOLIDÁRIA – FBES
GRUPO DE TRABALHO QUEIJOS ARTESANAIS SLOW FOOD BRASIL
INSTITUTO SOCIO AGROAMBIENTAL CERRADUS – ICERRADOS
INSTITUTO, SOCIEDADE, POPULAÇÃO E NATUREZA – ISPN
LABORATÓRIO DE ESTUDOS RURAIS DA UFRN
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA – MST
ONG MORADIA E CIDADANIA DO MARANHÃO
PETRUS CONSULTORIA
SERTÃOBRAS
SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DE MAJOR GERCINO
UNIÃO NACIONAL DAS COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA – UNICAFES
UNIÃO NACIONAL DAS ORGANIZAÇÕES COOPERATIVISTAS SOLIDÁRIAS – UNICOPAS
UNICAFES AMAZONAS
UNICAFES BAHIA
UNICAFES CEARÁ
UNICAFES MINAS GERAIS
UNICAFES PARANÁ
UNICAFES RIO DE JANEIRO
UNICAFES RIO GRANDE DO NORTE
UNICAFES RIO GRANDE DO SUL
UNICAFES SANTA CATARINA

http://www.slowfoodbrasil.com/textos/1018-nota-de-repudio-ao-ministerio-da-agricultura-pecuaria-e-abastecimento-em-defesa-da-producao-artesanal-e-agroindustria-familiar-de-produtos-de-origem-animal

Ler artigo