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Observatório do Queijo
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Coalisão em defesa dos queijos artesanais: responda a enquete

Observatório do Queijo

2 de outubro de 2017

O Oldways Cheese Coalition, organização americana que organiza o Dia Mundial do Queijo de Leite Cru, está promovendo uma enquete para conhecer os produtores de queijo no mundo inteiro. Produtores, comerciantes e consumidores podem responder ao questionário que não leva mais de um minuto diretamente no link em português: www.oldwayscheese.org/bra

Diretor da organização desde 2015, o mexicano Carlos Yescas esteve no Cheese, festival do queijo da SlowFood na Itália. Ele visitou a mesa de queijos do Brasil e nos convidou para divulgar esse grande projeto que apoia a produção e apreciação do queijo artesanal e protege as práticas tradicionais de fabricação de queijo de leite cru em todo o mundo. Desde 2009 ele é jurado do World Cheese Awards e em 2011 foi entronizado como membro da Guilde Internationale des Fromagers. Ele estará em São Paulo durante o prêmio Queijos do Brasil “para conhecer melhor a realidade brasileira”, justifica ele.

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Nova campanha da Slow Food é contra os fermentos industriais

Cultura, Observatório do Queijo, Política

26 de setembro de 2017

Depois de 20 anos em campanha pela valorização do queijo de leite cru, Slow Food lançou um novo tema em 2017, “o retorno ao queijo natural” durante o Cheese, evento bienal consagrado que reuniu 300 mil pessoas na pequena cidade de Bra, na Itália, entre 15 e 18 de setembro. “– Não adianta manter o leite cru e acrescentar fermentos das indústrias, que padronizam os sabores dos queijos e fazem com que um mesmo produto seja igual na Itália, Nova Zelândia ou Estados Unidos, pois a microflora de um terroir não pode se expressar se outras bactérias mais fortes, produzidas em laboratórios, ocupam o espaço” explicou Piero Sardo, presidente da Slow Food. Queijo natural também significa sem cálcio, sem nitratos, sem conservantes e com atenção especial ao alimento do gado e seu bem estar.

Hervé Mons, que participa do Cheese desde a primeira edição, chamou a atenção para o uso de fermentos do comércio, prática que corta a ligação do queijo com o terroir e que começa a se disseminar no mundo do queijo artesanal brasileiro.

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História dos queijos artesanais no Brasil 

Cultura, Destaque, Economia, Observatório do Queijo, Queijo, Sertão

31 de agosto de 2017

Por Cleube Andrade Boari, professor de Zootecnia a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) 

Provavelmente a produção de queijos no Brasil tenha acontecido desde a chegada das primeiras fêmeas mamíferas de interesse doméstico, como vacas, cabras e ovelhas, em nosso território. Entretanto, a construção de um histórico é bastante dificultada pela pouca quantidade de referências destas épocas. Em algumas obras raras, como Cultura e Opulencia do Brazil, por suas Drogas e Minas (1711), os três volumes de History of Brazil (1810), Viagem às Nascentes do Rio S. Francisco e pela Provincia de Goyas (1937), Diálogos da Grandeza do Brasil (1956) são feitas algumas menções à produção de queijos no Brasil, desde seus primórdios. Certamente, os autores destes livros vivenciaram situações distintas e, portanto, são comuns análises bastante diferentes. Este capítulo foi construído a partir de um mergulho na leitura destas obras, especificamente nos momentos em que a produção de queijos foi tratada. Além disto, outras leituras históricas e informações recebidas pela vivência com produtores de queijo artesanal foram sempre consideradas. O propósito é entender as principais técnicas utilizadas, especialmente no que diz respeito à história da cura dos queijos no Brasil. 

Na história é descrito como sendo o ‘Descobrimento do Brasil’ a chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500. Certamente a bordo das caravelas portuguesas Pinta, Nina e Santa Maria vieram alguns dos primeiros queijos para o novo continente, como alimento a tripulação. Não existem relatos de que os índios brasileiros produzissem queijos. Talvez este desafio fosse quase impossível a eles, pois não praticavam nenhum tipo de pecuária leiteira, por mais rudimentar que pudesse ser. Também não havia vacas, cabras e ovelhas nativas no território. Os índios viviam da caça, da pesca, do extrativismo e da produção de frutos, raízes e tubérculos. Quando o Brasil foi ‘descoberto’, as técnicas de produção e de cura de queijos já eram praticadas há muitos séculos em outras regiões do mundo. 

Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens.  Carta de Pero Vaz de Caminha, de 01/05/1500 

A partir do ‘descobrimento’, os interesses da metrópole portuguesa para a colônia brasileira foram basicamente extrativistas e monocultores, tão bem caracterizados nas finalidades dos ciclos econômicos da Cana-de-Açúcar e da Mineração. Não houve interesse no desenvolvimento da manufatura diversificada, inclusive alimentar, no Brasil. A ocupação humana foi basicamente suficiente para a manutenção e gestão dos ciclos econômicos. Era hábito comum o consumo de produtos importados da metrópole e de outros países da Europa, como os queijos. Nos livros apresentados anteriormente há menções à comercialização do queijo do Alem-tejo e de queijo alemão na colônia. 

Pode-se supor que, inicialmente, a pecuária se desenhou como coadjuvante nos ciclos econômicos da Cana-de-Açúcar e da Mineração no Brasil. Na medida em que as explorações aconteciam juntamente a elas foram instaladas a criação de cabras, ovelhas e, especialmente vacas com fins quase subsistencialistas de produção de alimentos. Porém, com a decadência destes ciclos produtivos, a pecuária assumiu papel de maior importância na geração de renda, ocupação e na produção local de alimentos. Neste aspecto, a produção de queijos ganhou notoriedade no dia-a-dia, especialmente por sua importância na conservação dos nutrientes do leite cru e para estabilizar o produto, permitindo o seu comércio e distribuição pelas inúmeras cidades que surgiam. 

Durante o ciclo da Cana-de-Açúcar, iniciado em meados do século XVI no litoral e agreste do nordeste brasileiro, houve imigração de povos para a colônia, especialmente portugueses e africanos trazidos, como escravos de diversas regiões da África. As primeiras vacas foram trazidas por Martim Afonso de Souza e sua esposa Ana Pimentel de Souza, em 1534. Estes animais foram especialmente utilizados para a geração de força motriz nos Engenhos de Trapiche e para o transporte com os carros de boi. Iguarias e alimentos, como queijos, destinados à alimentação do Senhor de Engenho e nobres da época eram trazidos da Europa. A produção local de leite era basicamente subsistente. Não era interesse da administração colonial, durante este ciclo econômico, o desenvolvimento da pecuária. Talvez a principal constatação deste fato tenha sido a publicação da Carta Régia de 1701, pela Coroa Portuguesa, pela qual se proibia a produção de gado em uma faixa de 10 léguas, aproximadamente 48 km, do litoral da costa. Com isto, a criação destes animais foi deslocada, ou empurrada, para o interior. Vacas e bois eram vistos, pelos Senhores de Engenho, como ameaça ao monocultivo da cana-de-açúcar, pois demandavam espaço e invadiam os canaviais para se alimentar. 

Na obra Diálogos das Grandezas do Brasil, cuja autoria provavelmente pertence a Ambrósio Fernandes Brandão, Senhor de Engenho e Escritor, que viveu de 1555 a 1618, é possível a leitura de trechos específicos do beneficiamento do leite nas regiões que ambientaram o ciclo da Cana-de-Açúcar, a saber: De vacas leiteiras havia currais, poucos, porque não fabricavam queijos nem manteiga; pouco se consumia carne de vaca, pela dificuldade de criar rezes em lugares impróprios à sua propagação, pelos inconvenientes para a lavoura resultantes de sua propagação, que reduziu este gado ao estritamente necessário ao serviço agrícola. Tem-se mais no diálogo entre Brandonio e Alviano, desta mesma obra, a saber: Brandonio: A vaca, sendo boa, é estimada nestas capitanias da parte do Norte, em quatro e cinco mil réis, e o novilho, que serve já para se poder meter em carro, a seis e a sete mil reis; e um boi já feito vale doze até treze mil réis. E êste é o prêço mais ordinário. Também se produzem na terra muitas ovelhas, carneiros e cabras, em tanto que das ovelhas parem muitas de um ventre dois carneiros, e das cabras a dois e a três cabritas. Alviano: Isso é coisa estranha; e pois tanto multiplica o gado, de semelhante espécie não deve de carecer a terra de queijos, nem de lã. Brandonio: Antes não há nela nenhuma coisa dessas, porque seus moradores não se querem lançar a isso; que podendo ter grande quantidade de lã de ovelhas, ainda que não fôra mais que para enchimento de colchões, se contentam antes de comprar a que trazem do Reino a três e a quatro mil réis; e da mesma maneira os queijos, E passa esta negligência tanto avante, que, com se dar semelhante gado grandemente na terra, não se querem dispor à cria dêle, contentando-se cada um de criar sòmente o que lhe basta para provimento de sua casa, que não pode ser maior vergonha. 

Nos três volumes de History of Brazil, considerada a obra mais extensa sobre Brasil colonial, de autoria do Historiador inglês Robert Southey, que viveu de 1774 a 1843, há uma realidade diferente daquela apresentada por Ambrósio Brandão. Obviamente, Robert Southey viveu em uma época pelo menos 100 anos mais recente que Ambrósio Brandão. Robert Southey relata um contexto produtivo de leite e de queijo mais vigoroso. Há menção à importação de vacas, ovelhas e cabras de Cabo Verde e da Europa, cujos leites eram utilizados para a produção de queijos e manteiga. Um interessante relato é feito no terceiro volume, a respeito de queijos produzidos no sertão de Pernambuco, os quais eram considerados como excelentes quando novos, mas se tornavam duros com o passar de quatro a cinco semanas. Conforme Robert Southey, as habilidades para a produção de lácteos não iam além destas.  

A produção do Requeijão do Sertão por escravos africanos e sua constante presença nas feiras também é relatada nestas obras raras. 

 

Provavelmente o queijo a que se referiu Robert Southey seja antepassado do Queijo de Coalho, cuja produção é antiga e com fortes laços artesanais, regionais e culturais. 

Mesmo tendo sido o antepassado do Queijo de Coalho o primeiro queijo brasileiro, não seria possível atribuir a sua produção o desenvolvimento das primeiras técnicas de maturação. É possível esta suposição, pois se trata esta de uma variedade de queijo tipicamente consumida poucos dias após a fabricação. As etapas básicas para a sua produção, mantidas até os dias atuais, compreendem a coagulação enzimática do leite, enformagem, prensagem, salga e estabilização. 

Em suas obras o Historiador Robert Southey fez outras rápidas menções a produção de queijos no Brasil colonial. Em 1784 relatou grande produção de queijos no Pará, a qual tratada, porém com qualidade inferior ao queijo do Alem-tejo. Relatou que havia algum tipo de produção de leite no extremo Sul do Brasil, mas que o gado tinha comportamento bastante selvagem e pouco leite era transformado, naquela época, em queijo ou manteiga. Relatou a produção de queijo de boa qualidade na região da baia do Paranaguá, Paraná, a partir de vacas, cabras e ovelhas. 

 Queijo no Para 

 

A produção de queijos aconteceu de forma mais acentuada durante o Ciclo da Mineração, ambientado na região dos atuais estados de Goiás, Mato Grosso, Bahia e, especialmente, Minas Gerais, a partir do final do século XVII. 

Durante a exploração do ouro e das pedras preciosas, muitos centros urbanos surgiram, dando origem a cidades como Diamantina, Serro, Ouro Preto, Mariana, Sabará, São João del Rey, Tiradentes e Paraty. Estes centros urbanos receberam muitos imigrantes, vindos de outras regiões do Brasil e também da Europa. Para atender a demanda alimentar das crescentes populações, produzir alimentos in situ foi fundamental. 

As dificuldades de rápido escoamento do leite cru das roças para as cidades, especialmente devido ao relevo montanhoso Minas Gerais, fizeram da produção de queijos a estratégia para conservar os nutrientes do leite cru e também para distribuí-los para o mercado consumidor, no lombo de animais. Com a decadência do Ciclo da Mineração, a pecuária leiteira passou a ser uma das grandes fontes de geração e riqueza para as regiões que ambientaram o extrativismo mineral. A produção destes queijos foi disseminada por diversas regiões, acompanhando o tropeirismo. 

Os queijos que surgiram a partir do Ciclo da Mineração são basicamente feitos da mesma forma até hoje. São produzidos com o leite cru de vaca, utilizando coagulante e o ‘Pingo’, que é um soro-fermento com microrganismos naturais e típicos da propriedade. O uso de prateleiras de madeira para a cura dos queijos também é mantida, como nos primórdios. Ao contrário disto, a utilização de bancas e formas de madeira foi proibida pelo Serviço de Inspeção. 

Acredita-se que a cura dos Queijos Minas Artesanal tenha sido empiricamente realizada nas roças, com a finalidade de tornar os queijos mais estáveis para que pudessem ser transportados em balaios e no lombo de animais, sem serem danificados durante o trajeto. Além disto, deve ter sido um procedimento para reunir uma quantidade de queijos para ser transportada. 

Talvez, comer um queijo fresco e branco fosse privilégio de quem morava na roça. Os queijos vendidos nas vendas das cidades eram mais amarelos, mais firmes e, supondo-se o tempo de cura e o tempo gasto para o transporte, provavelmente tinham sabor e aroma diferenciados, devido ao desenvolvimento e a sucessão dos microrganismos.  

Ouve-se falar, dos moradores mais antigos, que os queijos eram curados em prateleiras de madeiras nos porões das casas e até em gavetas de móveis de madeira. Alguns produtores costumavam amarrar os queijos em panos para curá-los. Utilizar prateleiras presas ao teto era uma estratégia para evitar o ataque de ratos. 

Queijos com aspectos diferentes, como a presença de fungos filamentosos e com a casca ‘molenga’ (queijo Casquinha da Canastra) costumavam ser rejeitados pelos tropeiros que faziam o comércio destes produtos. Alguns utilizavam a expressão ‘queijo doente’ ou ‘queijo com piolho’ para se referir a eles. Estes queijos geralmente eram consumidos na propriedade ou vendidos nas vendas com ‘tira-gosto’, após serem ‘descascados’. Os ‘queijos doentes’ ou ‘queijos com piolho’ provavelmente foram colonizados a cura, seja por fungos filamentosos, por leveduras, por bactérias e até ácaros. Certamente, muitas hidrólises aconteceram e muitos flavours devem ter sido neles experimentados. Em algumas regiões, estas colonizações são chamadas de ‘surgimentos’.  

Há de se considerar que, naquela época, devido a condições inadequadas de higiene e de estrutura, talvez não fosse possível maturar um queijo por períodos maiores. Entretanto, com os investimentos percebidos na atualidade, maturar queijos por longos períodos é bastante possível. 

Talvez um dos relatos mais detalhados da produção e comercialização do Queijo Minas Artesanal tenha sido aquele feito pelo Botânico e Naturalista Frances Augusto de Saint-Hilaire (1779 – 1853), em sua obra Viagem as Nascentes do Rio S. Francisco e pela Provincia de Goyaz. Saint-Hilaire faz menção a um queijo amarelo, com sabor adociacado e agradável, produzido na região de São João del Rey, Minas Gerais. 

O Queijo Minas Artesanal recém produzido apresenta sabor basicamente salgado e ácido. O sabor ácido decorre da fermentação da lactose por bactérias láticas, com consequente produção de ácido lático. Alguns dias após, é comum que este sabor ácido seja substituido por um sabor adocicado, devido a atividade de bactérias propiônicas. Somado-se este sabor à existência da casca amarela, o que Saint-Hilaire relatou é forte indicativo de queijo curado, talvez por um curto período de 15 dias, aproximadamente. 

A maturação de queijos artesanais em Minas perdeu importância, enquanto técnica de conservação, quando as trilhas e estradas de terra deram lugar à rodovias e quando as embalagens e o frio artificial surgiram. Estas mudanças dispensaram a necessidade de se maturar e os queijos se tornaram branco, com sabor basicamente salgado e ácido. Perdeu-se, em parte, o benefício da sucessão microbiana para a produção de flavour. Os microrganismos ‘artistas’ dos queijos perderam o tempo para completar sua obra. Todos as atuais experiencias com a maturação, realizadas nas roças e nas queijarias artesanais, são esforços dos produtores contemporâneos para resgatar a produção de flavour e textura e, até mesmo, para entender o que seus queijos poderiam ser. Vivemos o momento da maturação pela qualidade sensorial e, não apenas, da maturação pela conservação.  

A vinda de imigrantes para o Brasil, especialmente para as regiões sul e sudoeste, dentre os séculos XIX e XX, contribuiu para a introdução de varieddades e o aprimoramento da produção de queijos no Brasil. Exemplo de queijos que receberam esta valiosa contribuição são o Serrano (Santa Catarina), Colonial (Rio Grande do Sul), Queijo Prato (Minas Gerais), Queijo do Reino (Minas Gerais), Kochkäse (Santa Catarina), muçarela, dentre outros. 

A primeira fabrica de laticinios do Brasil – Companhia de Laticínios Mantiqueira, foi montada muitos séculos após o primórdio da produção leiteira e de queijos. Ela foi instalada no município mineiro de Palmyra, atualmente Santos Dumont, em 1888, por Carlos Pereira de Sá Fortes, com a contribuição do holandês Albert Boeke e dos Mestres Queijeiros Gaspar Long, João Kingma e J. Etienne. O principal queijo produzido foi o Queijo do Reino, de longa maturação. 

Após quase 500 anos da chegada das primeiras fêmeas leiteiras ao Brasil, os produtores de queijo artesanal vivem uma nova fase histórica, basicamente iniciada a partir do ano de 2002 e fortalecida a partir de 2012, no movimento denominado #salveoqueijoartesanal. 

Contemporaneamente, o trabalho muitos queijeiros, espalhados por todos os cantos do Brasil, destina-se a utilizar a cura não apenas como técnica de conservação ou de preparo para o transporte, mas sim de produção de sabores, aromas e texturas peculiares em seus queijos. Digamos que o momento é de se descobrir qual é o valor e qual é o resultado do trabalho dos microrganismos ‘artistas’típicos de cada propriedade! Tudo isto tem sido impulsionado por uma crescente aceitação dos queijos artesanais por segmentos de mercado bastante diferenciados, interessados em novos sabores, aromas e texturas, em terroir, em alimentos artesanais, locais e com conotações históricas e culturais. Há incessante busca por conhecimentos a respeito das condições de maturação mais apropriadas para privilegiar a atividade de microrganismos ‘artistas’ e desprestigiar bactérias indesejadas, ou reações indesejadas.  

 No sistema monetário colonial 1 oitava de corresponde a 3,585 g de ouro.  

Fonte: Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 

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Jornal do Queijo da Revista Profession Fromager

França, Observatório do Queijo, Oropa, Para Produtores

21 de junho de 2017

Traduzido em português, a primeira edição é consagrada ao Mundial do Queijo e de Produtos Lácteos de Tours, que aconteceu entre 11 e 13 de junho de 2017.

JF – Jornal da revista Profession Fromager from SerTãoBras on Vimeo.

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#pilulasdequeijo Fala Osvaldinho, o poeta do queijo d’Alagoa

Cultura, Observatório do Queijo, Oropa, Para Produtores, Queijo

14 de junho de 2017

O empreendedor mineiro Osvaldo Martins de Barros Filho, da loja virtual Queijo D’Alagoa-MG, que comercializa o queijo artesanal Alagoa, conta seus aprendizados e vivências na missão técnica Faemg/SerTãoBras, que reuniu 40 produtores, técnicos e pesquisadores de 3 a 14 de junho de 2017 na França. O queijo Alagoa Grande ganhou medalha de bronze no Concurso Mundial de Queijos e Produtos Lácteos de Tours, na França.

Fala Osvaldinho! Poeta do queijo d’Alagoa from SerTãoBras on Vimeo.

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Cursos de cura maturando as ideias do mundo do queijo brasileiro

Cursos, Observatório do Queijo, Para Produtores, Queijo

2 de março de 2017

Em Minas Gerais, três cursos de cura de queijos para um público diversificado. Resultado: a pororoca entre os rios do conhecimento secular queijeiro francês e o oceano dos queijos artesanais brasileiros

Por Débora Pereira. Fotos de Délphine Gehant, Maira Buarque, Paulo Márcio e Valéria Rodrigues

O que é um bom queijo? “Aquele que é vendido”.

A maior surpresa da professora Delphine Gehant foi descobrir que, em Minas Gerais, o período de maturação ideal de um queijo é determinado pela legislação sanitária. “Na França, esse tempo de cura é determinado pelas associações dos produtores, pelo resultado que elas querem obter no queijo que irão vender, um queijo bom é aquele que o consumidor decide comprar”, resume a professora. Para ela, um queijo que não está bom para ser consumido no momento que sai da forma, em termos de sanidade, não estará depois que o tempo passa. “Pelo contrário, na nossa legislação francesa, um queijo deve ter zero de Listeria ao sair da fabricação, mas temos uma tolerância maior (até cem por amostra) alguns dias depois, no momento em que ele é comercializado, pois sabemos que contaminações podem ocorrer durante o transporte e a comercialização”.

Primeiro curso. São Roque de Minas renova seus velhos conceitos

Curso de Cura em São Roque
Guiadas por João Carlos Leite, presidente da Aprocan, visitamos a sede da Saromcredi, banco cooperativista que desempenha papel importante na economia da cidade; a escola, onde ensinam crianças a fazer queijo; e algumas fazendas de associados da Aprocan. Delphine achou tudo super limpo e as salas de cura enormes em relação à quantidade de queijo em maturação. “Com temperatura ambiente e humidade que não mantém a maciez do queijo, os queijos tendem a secar, é uma pena, tanto investimento e um produto que talvez não seja bem aceito no mercado por ser muito seco e quebradiço” ela resumiu.

Mofos saudáveis

As maiores dúvidas dos produtores da Canastra eram sobre a sanidade dos mofos que têm nascido naturalmente em suas salas de cura. “Germes patogênicos só tem quatro” explicou Delphine “Listeria (um tipo somente, a monocytogenes, entre milhares de tipos),Staphylococcus aureus, E. coli e Salmonella”. Tirando isso, todos os mofos, aqueles que dão manchas amarelas fosforescentes ou salmão, os mofos azuis, brancos, vermelhos, todos podem ser consumidos” completou ela.

Os alunos do curso de São Roque, favorecidos por uma turma pequena de 35 alunos, não desgrudavam o olhar da professora. A degustação dos queijos franceses foi fundamental para mostrar o que é possível ser feito e para mostrar que o paladar é algo muito cultural: não adianta fazer queijo muito forte ou fedorento no Brasil que não vai vender, a não ser para um público muito seleto, dos mercados de nicho gourmet.

Uso de silo

Delphine explicou que a cura do queijo começa desde a fabricação e, inclusive fatores anteriores, como a alimentação das vacas, interferem no gosto dos queijos. “O uso de silagem é algo que deve ser evitado, não somente por propiciar um gosto considerado por alguns analistas sensoriais como “desagradável”, mas também pelo risco de contaminação com bactérias que produzem ácido butírico, por exemplo o Clostridium, que se multiplica facilmente em ambientes anaeróbios como milho ou cereais fermentados” explicou a professora. Essas bactérias causam inchamento tardio e mau gosto nos queijos, mas não provocam intoxicação no ser humano (ao contrário das butíricas das latas de conserva). A solução no caso desse problema está na melhora da qualidade bacteriológica dos alimentos do rebanho e na gestão da salga.

O curso apresentou soluções para outros defeitos de cura, como cascas rachadas ou pegajosas, sabor amargo ou ainda queijos de coração branco e casca muito cremosa, entre outros. 

Segundo curso. Em Belo Horizonte, um auditório engajado e heterogêneo

Em Belo Horizonte, produtores de queijo de diversas regiões do Brasil, fiscais agropecuários, instrutores de boas práticas, professores, pesquisadores, comerciantes de queijos e chefs de cozinha trocaram suas experiências e dúvidas. A realização do curso foi possível graças ao apoio da FAEMG e contou com a presença do presidente Roberto Simões e do superintendente Altino Rodrigues, que trabalha com políticas para valorização do queijo há mais de 20 anos em Minas Gerais.

Fotos FAEMG - Curso de Maturação de Queijos 06/02/2017

Diferenças entre o queijo artesanal e o industrial

Dando fim à discussão sobre o sexo dos anjos do queijo artesanal brasileiro, Delphine explicou que um queijo artesanal é aquele que o produtor se adapta ao leite, cuja qualidade e composição variam ao longo do ano, e aceita as variações sazonais do queijo, enquanto o industrial é aquele que o leite é “adaptado” à tecnologia de fabricação, num processo de estandardização para obter sempre o mesmo produto. O bom artesão é aquele que busca um queijo igual o ano todo, mas sem alterar a composição natural do leite. E se o queijo estiver diferente, a saída é aceitar e conscientizar os consumidores que é normal essa sazonalidade.

 

Terceiro curso. No Serro, esforço coletivo para valorizar o queijo

O curso para os produtores dos onze municípios da região do Serro foi possível graças ao empenho do presidente do SinSerro, Roberto Maravilha de Castro Teixeira e à ajuda da Faemg. Junto aos produtores, pesquisadores como a professora Célia Ferreira, José Manoel Martins, Cleube Boari, Renata Bonini e SôniaCampos enriqueceram o conteúdo do curso com suas observações.

Roberto nos levou para conhecer as instalações da cooperativa, que produz queijo pasteurizado e coleta queijos de leite cru dos mais de 170 produtores registrados no IMA. Ele desenvolveu um “controle de qualidade” bem prático para receber os queijos: o queijo é colocado em um tanque com água, se boiar é porque está “rendado” e é devolvido ao produtor. “Nós temos reclamações dos comerciantes quando o queijo está rendado e eles recusam o produto” justificou Roberto. Nesse caso, a saída seria enviar os queijos para a venda em São Paulo, onde os “furadinhos” são muito apreciados pelos consumidores mais populares. Mas, infelizmente, a legislação não permite a comercialização desse queijo fora do estado de Minas Gerais… o que dá margem para as “inconfidências queijeiras” e para o comércio informal.

Curso de Cura em Serro

Preservar a microbiodiversidade evitando cloro e água sanitária

Cloro e água sanitária, só em caso de contaminação grave, comprovada por exames” reforçou a professora para os alunos do Serro, que custaram a acreditar nessa informação que contraria o que é ensinado nos manuais de “boas práticas”. “Essas e outras substâncias desinfetantes empobrecem o ambiente, matando as boas bactérias que ajudam a acidificar o leite e a dar mais gosto e tipicidade aos queijos”, explicou a professora. “Um leite muito limpo é um leite pobre em germes” reforçou Delphine “e isso dificulta a cura do queijo“.

Como o leite sai estéril do mamilo da vaca, ele começa a ser “povoado” de bactérias desde a ordenha até a fabricação. Essas bactérias podem ser semeadas posteriormente, nas salas de maturação.

A presença dessas bactérias tem inúmeras funções: ajudar na cura (na proteólise) do queijo, provocar olhaduras (algumas podem ser desejadas), provocar o aparecimento de aromas e sabores, acidificar ou alcalinizar a massa (dependendo dos germes) ou ainda contribuir para a formação de um determinado tipo de casca.

Os participantes do curso do Serro foram convidados para uma confraternização no casarão de Maria Coeli, irmã do presidente da Associação dos produtores do queijo do Serro, Jorge Simões. “Percebemos que os queijos de Minas Gerais têm forte história e tradição, só por isso estão resistindo aos constrangimentos da legislação”, concluiu Delphine.

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